

O combate à violência contra a mulher começa muito antes de uma agressão física. Passa pela educação, pela forma como meninas e meninos são criados, pelo reconhecimento dos primeiros sinais de um relacionamento abusivo e, principalmente, pela disposição da sociedade em não se calar. Essa foi uma das principais mensagens do evento Eles por Elas, realizado no sábado (15), em Bebedouro.
Promovido pela Palheiros Paulistinha, o encontro foi destinado a todos os 2,8 mil funcionários diretos e indiretos da empresa, além de convidados, dentre eles, a Gazeta de Bebedouro. A iniciativa integra a programação realizada durante o mês de agosto e faz alusão à campanha Agosto Lilás, período dedicado à conscientização, prevenção e combate à violência contra a mulher. A ação também remete ao aniversário da Lei Maria da Penha, marco importante na proteção dos direitos das mulheres e no enfrentamento à violência doméstica e familiar.
Na programação, palestras, relatos e orientações de profissionais que atuam diretamente no atendimento e na proteção de mulheres. Entre os assuntos abordados estiveram machismo, desigualdade de gênero, violência física, psicológica, patrimonial, moral e vicária, além dos mecanismos previstos na Lei Maria da Penha.
Uma história de direitos conquistados
A primeira palestrante, Erica Pierini, diretora administrativa da Palheiros Paulistinha, conduziu à reflexão sobre como comportamentos aparentemente comuns podem contribuir para perpetuar desigualdades entre homens e mulheres, apresentando uma retrospectiva das conquistas femininas e lembrando que, até poucas décadas atrás, direitos considerados básicos hoje não eram garantidos às mulheres.
Pierini chamou atenção para o fato de que as mulheres brasileiras só conquistaram o direito ao voto em 1932. Também lembrou que, até 1962, mulheres casadas precisavam de autorização do marido para trabalhar; até 1974, dependiam da autorização de um homem para abrir sua conta bancária; e somente em 1977 o divórcio passou a ser permitido no país.
Outro marco citado foi a Constituição Federal de 1988, que estabeleceu formalmente a igualdade entre homens e mulheres. Para a palestrante, conhecer essa trajetória ajuda a entender que a desigualdade não é algo natural, mas resultado de uma construção cultural que pode e deve ser modificada: “É preciso que a gente repense o quanto eu olho para uma mulher, o quanto eu olho para as mulheres à minha volta e enxergo um ser humano de igual valor a mim”, ressalta Pierini.
A violência começa antes da agressão física
Pierini também levou a discussão para dentro das famílias, mostrando como determinados comportamentos são ensinados desde a infância, citando exemplos como separar brinquedos de acordo com o sexo, dizer aos meninos que “homem não chora” e ensinar às meninas que precisam ser bonitas, delicadas, obedientes ou “boazinhas” para serem aceitas. E que essas mensagens podem colocar meninas em posição de inferioridade e, ao mesmo tempo, impedir que meninos aprendam a reconhecer e expressar seus sentimentos. A reflexão também envolveu a responsabilização das mulheres pela violência sofrida. Pierini criticou comentários que procuram justificar atitudes de agressores pela roupa, pelo comportamento ou pelas escolhas da vítima: “A gente precisa começar a colocar a culpa a quem ela pertence, o homem agressor, e parar de tentar justificar na mulher, as atitudes desse homem”, ressalta.
Homens também precisam participar
Outro ponto destacado foi a importância da participação masculina no enfrentamento ao machismo. Para Pierini, não basta que um homem não pratique agressão. É necessário que ele se posicione diante de comportamentos violentos ou discriminatórios praticados por outros homens e usou como uma situação hipotética em uma reunião de trabalho: um homem faz um comentário machista, enquanto os demais permanecem em silêncio. Mesmo sem participar diretamente da ofensa, a omissão pode fazer com que a mulher se sinta desrespeitada por todo o grupo: “Não basta não ser o agressor, eu preciso combater quem faz a agressão”, diz.
A palestrante também destacou que a construção de relações mais igualitárias beneficia os próprios homens, ao permitir que eles rompam com a ideia de que precisam ser fortes o tempo todo, não podem chorar ou demonstrar vulnerabilidade.
Informação que acolhe e protege
Acolhimento e orientação também foram destacados por Silvia Mara, assistente social, coordenadora do Cram (Centro de Referência de Atendimento à Mulher). Ela explicou que o serviço atua na conscientização e no atendimento de mulheres em situação de violência, mas não funciona como delegacia ou abrigo. O objetivo é oferecer orientação, acolhimento e fortalecer a mulher para que ela conheça seus direitos e saiba onde buscar ajuda: Silvia reforçou ainda que a rede de proteção de Bebedouro reúne diferentes serviços e profissionais e que qualquer pessoa que identifique uma situação de violência pode procurar orientação: “Para pedir ajuda, não há necessidade de ter BO. O Cram está de portas abertas”.
Silvia também apresentou um exemplo atendido recentemente pelo Cram para explicar a violência vicária, quando o agressor utiliza algo ou alguém próximo da mulher para atingi-la emocionalmente. No caso relatado, um homem ameaçou matar o animal de estimação do casal como forma de intimidar a companheira. A mulher procurou ajuda, conseguiu a medida protetiva e permaneceu com a guarda do animal, mostrando como a violência pode assumir diferentes formas e reforça a importância de reconhecer os sinais e buscar apoio antes que a situação se agrave.
O Cram oferece acolhimento, orientação e acompanhamento para mulheres que vivenciam situações de violência. O trabalho busca fortalecer a vítima para que ela compreenda seus direitos, conheça os caminhos disponíveis para buscar proteção e tenha acesso à rede de atendimento do município.
Informação também é proteção
A programação contou ainda com a participação do professor e advogado Fábio Caliari, que apresentou informações jurídicas sobre a violência doméstica e a Lei Maria da Penha. Com experiência desde 1999 no atendimento a vítimas de violência doméstica, Caliari explicou que a informação é uma das principais ferramentas de proteção: “Quanto mais informação, mais conseguimos proteger. A informação é fundamental e essencial para o combate à violência”, ressalta.
O especialista explicou que a Lei Maria da Penha possui abrangência ampla e pode ser aplicada em diferentes situações de convivência doméstica, familiar ou de relação íntima de afeto. Também apresentou os diferentes tipos de violência previstos na legislação. Além da violência física, foram discutidas as demais tipificações da violência: psicológica, sexual, patrimonial e moral. A palestra também abordou a violência vicária, quando o agressor utiliza pessoas ou seres que possuem vínculo afetivo com a mulher para atingi-la.
Violência patrimonial também prende a mulher
Um dos pontos destacados por Caliari foi a violência patrimonial, quando o controle financeiro pode dificultar a saída de uma mulher de um relacionamento abusivo. O agressor pode controlar o salário da companheira, impedir que ela trabalhe, determinar como o dinheiro será utilizado ou provocar prejuízos financeiros. O professor ressaltou ainda que a autonomia financeira e o acesso ao trabalho podem ser importantes para romper o ciclo de violência: “Enquanto mulher, elas conseguem o apoio da rede de atendimento multidisciplinar para conseguir força para sair do relacionamento”.
Medida protetiva não depende de condenação
Também foram esclarecidas dúvidas sobre as medidas protetivas de urgência. Caliari explicou que a proteção pode ser concedida sem que exista necessariamente um processo criminal ou uma condenação. E destacou ainda mudanças na legislação que ampliaram os mecanismos de proteção, incluindo a possibilidade de afastamento do agressor do lar e o reconhecimento da violência psicológica como crime. O advogado reforçou que o objetivo das medidas é impedir que a situação de violência se agrave.
A força do relato de quem viveu a violência
Um dos momentos mais emocionantes do evento foi o depoimento de Graciela Alves, que compartilhou com todos, a própria experiência de violência doméstica e o processo de reconstrução da vida. Ela contou que chegou a pedir medida protetiva, deixou a casa e buscou ajuda, mas também enfrentou o julgamento de pessoas que questionavam por que ela havia retornado ao relacionamento. Graci explicou que uma mulher em situação de violência pode não conseguir simplesmente “ir embora”, principalmente quando existe medo, dependência emocional, financeira ou ameaça contra familiares. Ela também falou sobre os efeitos da violência no cérebro e que, diante de uma situação de ameaça, algumas pessoas fogem, outras lutam e outras podem simplesmente paralisar: “Não é porque ela seja fraca. Ela só está tentando sobreviver”.
Ao falar sobre a própria trajetória, Graci afirmou que passou por acompanhamento psicológico e psiquiátrico e precisou reconstruir a própria identidade: “Hoje eu não sou mais vítima. Hoje sou eu quem controla a minha história e estou escolhendo expor para você”.
Rede de apoio pode fazer a diferença
O depoimento também trouxe a reflexão sobre a importância de não julgar mulheres que ainda não conseguiram romper o relacionamento violento. Alves contou que encontrou acolhimento no Cram e destacou o apoio recebido durante o processo de reconstrução. Para ela, o acolhimento pode ser determinante para que uma mulher encontre forças para pedir ajuda: “Não julguem. Apoiem, protejam, amem”, complementou.
Patrulha Maria da Penha atua na cidade
A programação também apresentou o trabalho desenvolvido pela Patrulha Maria da Penha, da Guarda Civil Municipal. A comandante Simone Rodrigues explicou que o serviço acompanha mulheres que possuem medidas protetivas e atua em parceria com diferentes órgãos. Segundo ela, a Patrulha Maria da Penha foi criada em Bebedouro em 2021 e começou efetivamente a acompanhar as medidas protetivas a partir de 2022. O trabalho envolve Guarda Civil, Poder Judiciário, Ministério Público, Cram, OAB, Polícia Civil, Polícia Militar e outros setores.
A equipe também orienta mulheres sobre o uso do botão do pânico, ferramenta que permite acionar a Guarda em situação de emergência. Segundo Rodrigues, até agosto deste ano, a Guarda já havia registrado 53 atendimentos relacionados a ocorrências de violência doméstica, com 18 prisões por agressão ou violência doméstica e duas prisões por descumprimento de medidas protetivas: “A gente não está aqui para julgar. A gente quer fortalecer e ajudar essa mulher a sair desse ambiente familiar de agressão e violência”.
CRAM reforça que pedir ajuda é possível
Representantes do Cram também destacaram que o serviço não é uma delegacia nem um local de acolhimento permanente, mas um espaço de orientação, atendimento e fortalecimento da mulher. A equipe reforçou que a violência pode ser percebida em situações de controle, humilhação, ameaça, isolamento e outras atitudes que muitas vezes acabam sendo naturalizadas. O serviço também apresentou aos participantes uma relação com os locais onde mulheres podem buscar ajuda em Bebedouro. A orientação é que a mulher não espere a agressão física para procurar apoio.
Compromisso que é de todos
Ao final, o evento reforçou que o enfrentamento da violência contra a mulher não depende exclusivamente das forças de segurança ou do Judiciário. A responsabilidade também passa pelas famílias, empresas, escolas, universidades, amigos, colegas de trabalho e pela comunidade.
A proposta do encontro Eles por Elas, promovido pela Palheiros Paulistinha para seus funcionários e convidados, foi justamente ampliar o conhecimento e transformar os participantes em agentes de prevenção e apoio.
A mensagem deixada durante o encontro é que perceber os sinais, acolher sem julgar e orientar sobre onde buscar ajuda, podem ser atitudes decisivas para interromper o ciclo de violência: “Às vezes, o que impede uma pessoa de sair de uma situação como essa é o medo e a falta de apoio. Então, a gente tem importância e dever”, salientou Caliari.
Mais do que um debate sobre direitos, Eles por Elas mostra que combater a violência contra a mulher é um compromisso coletivo e essencial para a construção de nossa sociedade, mais humana e igualitária. Ao promover informação, acolhimento e reflexão entre 2,8 mil funcionários e convidados, a Palheiros Paulistinha reforça que a prevenção começa nas pequenas atitudes do cotidiano, na educação das novas gerações e na coragem de romper o silêncio diante de qualquer forma de violência.
A iniciativa também dialoga diretamente com o propósito do Mundo Melhor, ao valorizar ações que contribuem para transformar vidas por meio do respeito, da igualdade, da informação e da solidariedade.
Publicado na edição 11.026, quarta, quinta e sexta-feira, 19, 20 e 21 de agosto de 2026 – Ano 102





