Em entrevista a Gazeta e RB, gestor do Hospital Estadual lamenta 100% de ocupação de leitos

Everton Zem destaca alteração no comportamento do vírus, com possibilidade de circulação das novas variantes, e assume que cidade tem cerca de 10 pessoas na fila da UTI.

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No combate – As jornalistas Claudinha Fran, da RB FM, e Sarah Cardoso, diretora da Gazeta, entrevistam o gestor do Hospital de Amor, Everton Zem, e orientam a população sobre a pandemia na cidade. (Gazeta)

Preocupado com a situação epidemiológica do município e a alta taxa de ocupação de leitos na rede pública, o gestor do Hospital Estadual, Everton Zem, concedeu entrevista na manhã de sexta-feira (11), às 11h30, ao vivo pela RB FM, com retransmissão pelas páginas da Gazeta de Bebedouro no Facebook e Instagram.

Falando com exclusividade aos mais tradicionais veículos da mídia bebedourense, Zem lamentou os níveis de ocupação de leitos SUS em Bebedouro e na região: “se eu precisasse salvar a vida da minha mãe, hoje, não conseguiria. Este é o sentimento de culpa que nós, profissionais de saúde, carregamos diariamente”.

A entrevista foi coordenada pela jornalista e diretora da Gazeta, Sarah Cardoso, e pela locutora e jornalista Claudinha Fran, da Rádio Bebedouro. Com pesar, Zem destacou que dos 20 leitos de UTI da rede pública, do Hospital Estadual, cadastrados na Cross (Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde), 100% deles estão ocupados, com fila de espera de aproximadamente 10 pessoas, que estão em suporte ventilatório, aguardando vagas em UTIs, no Hospital Estadual.

“Nunca deixamos de atender nenhum paciente, mas neste cenário, não é possível mantê-los sob nossos cuidados de terapia intensiva, como seria o ideal. Eles ficam em leitos de suporte ventilatório, com todo apoio da equipe médica e as medicações necessárias, seja na enfermaria do Estadual ou no Hospital Municipal, mas vai chegar um momento em que precisarão de UTI, com tratamento específico e, se continuarmos como estamos, não poderemos atendê-los. Quanto mais tempo na UTI, maior a chance de sobrevivência do paciente, mas infelizmente, não estamos conseguindo atender a demanda de Bebedouro e região”, lamentou o gestor, acompanhado pelo pesar das entrevistadoras.

A diretora da Gazeta destacou que medidas como isolamento social e o uso de máscaras, ensinadas à população há um ano, ainda são desrespeitadas por muitos: “não sei se as pessoas estão cansadas ou se perderam o medo, mas elas não entendem que quanto maior o número de doentes, maior a porcentagem de pessoas que precisarão de UTIs e, consequentemente, mais mortes serão registradas”, analisou Sarah Cardoso.

Zem concordou e exemplificou: “oficialmente, o país cancelou o Carnaval. Mas nós, dos serviços de saúde, sentimos os impactos do Carnaval, 15 dias depois, porque muitos comemoraram o feriado, viajaram e fizeram festas clandestinas. A população ainda não entendeu a gravidade do vírus”, disse, e acrescentou: “A taxa de transmissão está mais alta a cada dia, justificada pela falta de distanciamento social. Com isso, a letalidade também é muito maior, comparada ao início da pandemia. Se a doença está mais agressiva, haverá mais mortes em decorrência dela”.

Segundo o gestor, somente no Hospital Estadual, desde sua abertura, já morreram 113 pessoas em decorrência da Covid-19, entre bebedourenses e moradores da região. “Classifico como imprudência de alguns, que se reflete na saúde de todos. Em um ano de pandemia, há ainda quem não acredite na efetividade do distanciamento social. Vejo nas redes sociais, alguns duvidando da pandemia e acusando-a de ser uma ‘jogada política’.

Para estes, quero fazer um convite: venham tomar um café comigo no Hospital e fazer um tour pelos leitos. Faço questão de paramentá-los com todos os equipamentos de segurança contra o vírus, e levá-los para conhecer nossas instalações. Se somente isso for necessário para fazê-los acreditar na doença, eu faço. O que não dá mais é continuar se eximindo da culpa de tantas mortes”, enfatizou Zem, na entrevista ao vivo.

Sarah Cardoso citou trecho da entrevista do infectologista David Uip à Globo News, na manhã de sexta-feira (12), em que o especialista diz que, antes, a recomendação à população era “fique em casa”, mas agora é “não saia de casa”. “Que orientação o senhor daria às pessoas?”, questionou a jornalista ao gestor do Hospital.

“Eu adotaria a mesma orientação de Uip”, respondeu Zem, sem rodeios: “O churrasco pode esperar, a festinha com os amigos, a confraternização… tudo pode esperar. Nós estamos aqui para conscientizar, orientar, fornecer tratamento, medicação e vacinas, mas é a população, a principal responsável pelo fim do vírus”, afirmou.

Nova variante?
A apresentadora Claudinha Fran questionou ao gestor se há mudança no comportamento do vírus, já que no início, ouvia-se dizer que a maioria dos pacientes tratava-se em casa ou tinha sintomas leves, mas hoje, grande parte dos pacientes, de todas as idades, precisa de internação em enfermaria ou UTI.

“Os atendimentos do início da pandemia e de agora mudaram completamente”, concordou Zem: “hoje, estamos perdendo jovens de 30 e poucos anos, sem comorbidades. A doença está cada vez mais grave, necessita de mais tempo de internação, mais medicação e atinge os mais novos, com maior gravidade”.
Sobre a existência da nova cepa na região, o gestor respondeu a Sarah Cardoso: “Não há comprovação científica da nova variante em nossa regional, mas é notória a mudança de comportamento do vírus em comparação ao início da pandemia, o que nos faz crer que há variantes circulando entre nós”, lamentou.

O tratamento, segundo Zem, também mudou em decorrência das mutações do vírus: “o tratamento adotado por nossa equipe, quando o Hospital Estadual chegou a Bebedouro, é completamente diferente de agora. Assim como a doença está mais agressiva, seu tratamento também. Estamos investindo em mais medicação para salvar o paciente, porque seu organismo já não responde significativamente”.

Falta de insumos
Everton Zem negou a falta de insumos em Bebedouro: “desde sua abertura, o Hospital Estadual de Bebedouro foi bem preparado e temos insumos suficientes. O Hospital de Amor de Barretos tem duas usinas de gás medicinal, o que também não nos deixa em falta, porém, já sentimos os efeitos da falta de recursos humanos. Nossa equipe está esgotada, revezando-se para atender a demanda de Bebedouro e região”.

O gestor continuou, destacando que muitos falam em abrir novos leitos na cidade, mas segundo ele, se não houver mudança no comportamento da população, estes novos leitos também ficarão lotados em poucos dias. “Além do mais, não temos no mercado, profissionais suficientes para dar conta da demanda crescente. E não falo somente dos médicos, intensivistas e enfermeiros, mas também dos fisioterapeutas, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais, que são fundamentais no processo de reabilitação dos pacientes”, disse Zem.

“A fé nos sustenta”
Questionado pela diretora da Gazeta sobre como anda o espírito da equipe médica, que diariamente trabalha no Hospital, Zem respondeu, enfático: “a fé nos sustenta”, relembrando da visita de Dom Milton Kenan Júnior, que concedeu bênção aos colaboradores: “Mais do que envolver o lado religioso de cada um, estas mensagens nos dão alento psicológico e nos incentivam a cuidar dos pacientes, como membros de nossa família. A fé tem nos mantido de pé, mesmo após plantões cansativos, sabendo que precisaremos retornar no dia seguinte, acumulando este cansaço, porque há pessoas que dependem de nós para sobreviver”, ressaltou.

O gestor do Hospital comemorou que, com exceção das tantas mortes, há outras centenas de pacientes que já passaram pela unidade e saíram recuperados: “Ver um paciente que estava desacreditado ter melhora e ir para casa, nos alegra e nos motiva a não desistir”, emocionou-se.

A entrevista impactante e esclarecedora foi encerrada com pedido das jornalistas e do gestor, para que população mantenha-se em casa e siga as medidas de distanciamento social.

Atualização de casos
Bebedouro tem 4.072 pessoas infectadas pela Covid-19 desde março de 2020, segundo boletim epidemiológico de sexta-feira (12). Destes, 3.545 residem em Bebedouro e 527 em cidades da microrregião.

O boletim aponta ainda que 3.886 pacientes já estão recuperados (3.376 de Bebedouro e 510 da região) e 92 pessoas estão infectadas, cumprindo isolamento domiciliar. Outros 26 estão sob suspeita da doença.
Os óbitos em decorrência da Covid-19 subiram para 92 na quinta (11), com a morte de homem, 64, com quadro clínico de insuficiência renal crônica e obesidade, mas na sexta (12), o número saltou para 94, com as mortes de mais dois homens, de 72 e 75 anos, com obesidade e hipertensão, respectivamente. Todos estes falecerem no Hospital Estadual.

A ocupação de leitos em Bebedouro, no Hospital Estadual, como já dito pelo gestor da unidade, está em 100%, com 20 pacientes em estado grave. Já na Unimed, cinco dos 11 leitos estavam ocupados (45%). Há ainda quatro bebedourenses em UTIs de Barretos. As internações em enfermarias somam 36: 18 pessoas estão no Hospital Estadual, seis no Municipal, quatro na UPA 24h e oito na Unimed. As internações não constam do total de infectados.

Esporte suspenso
O governo de São Paulo anunciou a suspensão das atividades esportivas no estado, incluindo o Campeonato Paulista, em coletiva de imprensa na quinta (11). No dia anterior, as autoridades estaduais haviam informado que não descartavam esta possibilidade, mesmo após o pedido da FPF (Federação Paulista de Futebol), para que o estadual não fosse paralisado.

No dia seguinte, as especulações se confirmaram e o campeonato foi suspenso até 30 de março. Os clubes de São Paulo e a FPF tentaram reverter esta decisão, mas o governador João Doria e os especialistas do Comitê de Contingenciamento aconselharam a manutenção da medida.

Publicado na edição 10.562 de 13 a 16 de março de 2021.