Em quem você confia?

José Renato Nalini

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Confiança é um bem intangível. Demora para construir, demole-se num segundo. O mundo vive uma crise manifesta de confiança. Ninguém mais acredita em ninguém. Isso é ruim. A vida já é um sofrimento, principalmente em tempos de peste. O Brasil é um caso à parte.

Não bastava a pandemia, mas há problemas na economia, no ambiente, na governabilidade. Enfim, é preciso recobrar confiança em algo ou em alguém.

A agência global de comunicação Edelman fez uma pesquisa entre outubro e novembro de 2020 e constatou que o brasileiro só confia na empresa. Para 61% dos entrevistados, ela é a única instituição confiável. As ONGs ficaram com 56%, a mídia com 48% e o governo com 39%.

Isso significa a realidade da constatação de pensadores que veem o declínio da Democracia representativa como um dos fenômenos a serem considerados neste século. A representação faliu, porque ninguém mais se sente representado nas funções estatais.

Houve um divórcio entre o representante e o representado. Aquele procura o eleitor às vésperas das eleições, promete mundos e fundos e depois desaparece. Fica a cuidar de seus próprios interesses. Volta à época da eleição ou da nefasta reeleição, raiz de inúmeros males nesta terra.

É urgente que, além das reformas essenciais – administrativa, tributária, do sistema Justiça, da educação pública – se faça uma reforma política. O constituinte de 1988 prometeu uma Democracia Participativa, mas foi muito tímido ao contemplar apenas o plebiscito, o referendo e a iniciativa popular como institutos de implementação de um modelo em que o cidadão tem vez e voz na gestão da coisa pública.

Seria bom voltar a discussão para incluir no texto constitucional o recall, inclusive o recall judicial e o veto popular. O recall permitiria a cassação em pleno curso do mandato, para aquele que não estivesse a exercer o mandato tal e qual os representados gostariam. Recall judicial para cassar decisões evidentemente contrárias ao direito. Infelizmente, ocorrência não rara no sofisticado Judiciário tupiniquim.

Os governos que se cuidem, porque chegará o dia em que a cidadania terá condições de exigir que eles se convertam naquilo que deveriam ser: instrumentos a serviço do único titular da soberania: o povo. Governo existe para servir e não para ser servido.

Moradia: pode ser bonita

A moradia é direito social previsto na Constituição Cidadã. Há milhões de brasileiros que não têm onde morar. Há milhões morando mal. Pequenas construções abrigam número excessivo de moradores. Viu-se, com a pandemia, que esse convívio promíscuo é fator dominante na disseminação da Covid19.

Os sucessivos planos habitacionais partem de saudável inspiração, que é prover o brasileiro de um teto. Mas repetem-se na mesmice de grandes conjuntos homogêneos, casas minúsculas padronizadas e esteticamente pobres.

Se o Brasil fosse um país com diminuta extensão territorial, compreender-se-ia a economia de solo para que as casinhas contíguas lembrassem um triste pombal. Não há um jardim, não há uma árvore, não há espaço para uma pequena horta e menos ainda para um pomar.

Incrível que o país de Niemeyer, de Ruy Ohtake, de Paulo Mendes Rocha, de Lúcio Costa, de Ariosto Mila, de Araken Martinho, se preste à sucessão de construções idênticas, que aniquilam a individualidade, embora aparentemente aptas a acolher o núcleo familiar, não contribuem para formar um ambiente digno, ecológico e, portanto, saudável.

Por isso é de se animar quem não se conforma com a falta de criatividade, a notícia de que a Tenda vai inaugurar uma fábrica de casas. Ela promete uma disrupção no modelo de construção no Brasil, com a produção de vigas, pilares, paredes e outros elementos dentro da fábrica. Ela funcionará em Jaguariúna e sua linha de produção é da sueca Randek.
Serão casas baseadas no woodframe, com uso intensivo de madeira. Esta virá de reflorestamento, custa menos do que cimento e aço e é esteticamente mais interessante do que a pobreza arquitetônica dos atuais projetos de conjuntos residenciais.

A capacidade será de dez mil residências anuais e tudo indica atrair aqueles que não se satisfazem com o singelo modelo das casinhas enfileiradas, indistintas, que não suprem o sonho da casa própria de quem precisa de um jardim, de um quintalzinho, de uma paisagem doméstica mais próxima ao bom gosto. Algo que os grandes complexos residenciais governamentais parecem ter esquecido.

(Colaboração de José Renato Nalini, Reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022).

Publicado na edição 10.578 de 15 a 18 de maio de 2021.