Escolhas morais

José Renato Nalini

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A moral não é muito valorizada. Assim como a ciência que a tem por objeto: a ética. Mas não é porque deixa de ser praticada que ela inexiste. A moral é uma força intrínseca, suficiente para conduzir os que dela são municiados até ao extremo sacrifício.
Como a História é o registro das vãs vitórias obtidas pela mesquinhez dos homens, o relato de episódios impregnados de lições morais resta sob o tapete dos interesses imediatistas. De quando em quando afloram e não são muitos os que, comovidos e convencidos, assumam o propósito de tê-los como eixos orientadores das próprias vidas.
Um deles é a história real do austríaco Franz Jägerstätter. Camponês simplório, vive feliz a cultivar a terra. Muito religioso, cuida de mulher e três filhas, mais a mãe, num pequeno povoado da província austríaca de Radegund.
Eis senão quando, Hitler invade e domina a Áustria. Como austríaco, seu povo aplaudia a anexação à Alemanha. E começa a doutrinação de todos para uma total conversão nazista. Franz é forçado a aderir e a jurar fidelidade ao Führer. E enfrenta o mais severo tribunal, para aqueles que dispõem desse juiz implacável que é a consciência.
Um conflito como esse pode parecer ininteligível para quem é movido por interesses. Consciência é um acessório que a vida contemporânea considera inútil. Mas quem procurar com lupa, ainda a encontrará. Não em celebridades, mas em pessoas humildes como Franz.
Houve uma pressão coletiva sobre ele. Por que não obedecer ao mais forte? Por que ser diferente de todos os outros? Seria um “criador de caso”, queria ser “diferente”, considerar-se-ia melhor do que os demais?
Ele se mantém firme, apartado dos coetâneos, mas fiel à sua fé. Hostilizado até pela hierarquia católica, que aderiu ao nazismo, foi incompreendido, injustiçado, finalmente morto em 9.8.1943, em Brandemburgo, na Alemanha, aos 36 anos.
Desde então, permaneceu no anonimato. Até que em 2007, foi declarado e beatificado pelo Papa Bento XVI, que por coincidência se viu obrigado a integrar a Juventude Hitlerista quando adolescente.
Por incrível possa parecer, ainda existem objetores de consciência como Franz Jägerstätter. São faróis que nos chamam à permanente conversão ao bem. Estamos atentos a eles?

(Colaboração de José Renato Nalini, Reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020).

 

Publicado na edição nº 10518, de 16 a 18 de setembro de 2020.