

Vivemos uma época de grandes avanços na medicina. Nunca tivemos tantos recursos para diagnosticar doenças, desenvolver medicamentos e controlar condições crônicas que, durante muito tempo, representaram grandes desafios para a saúde humana.
Hipertensão arterial, diabetes e doenças cardiovasculares, entre tantas outras condições, podem ser acompanhadas por anos, com tratamentos que contribuem para reduzir complicações e prolongar a vida.
Entretanto, diante de tantos avanços, uma questão merece nossa atenção: estamos conseguindo transformar o controle das doenças em melhores condições de saúde e qualidade de vida?
Podemos tratar uma doença durante anos, controlar seus indicadores laboratoriais e, ainda assim, não conseguir devolver saúde, disposição e autonomia ao paciente. Controlar a doença é fundamental. Mas preservar a vida em sua plenitude também precisa ser um objetivo do cuidado.
Quando exames melhoram, mas qualidade de vida não
Imagine uma pessoa que convive com diabetes, hipertensão e alterações do colesterol. Ela utiliza regularmente os medicamentos prescritos, realiza exames periódicos e apresenta resultados satisfatórios. Do ponto de vista clínico, o tratamento pode estar alcançando seus objetivos. No entanto, essa mesma pessoa pode continuar apresentando fadiga, perda de massa muscular, sono inadequado, dificuldades de mobilidade e redução progressiva da capacidade de realizar suas atividades cotidianas. Essas manifestações podem estar relacionadas às próprias doenças, ao envelhecimento, ao estilo de vida ou até mesmo a problemas associados à farmacoterapia.
O fato é que bons resultados laboratoriais não representam, necessariamente, a recuperação de todas as dimensões da saúde. A saúde de uma pessoa também se manifesta na disposição para viver, na capacidade de caminhar, na independência para realizar tarefas e na possibilidade de manter suas relações sociais e seus projetos pessoais. Controlar uma doença não significa, necessariamente, recuperar a saúde.
Tratar, controlar e cuidar: objetivos para caminhar juntos
Nem toda doença tem cura, e existem condições crônicas em que o controle clínico é indispensável para preservar a vida e evitar complicações. Entretanto, o cuidado não deve se limitar ao diagnóstico, à prescrição e ao acompanhamento de indicadores laboratoriais. É necessário investigar os fatores que contribuem para o adoecimento, identificar condições que comprometem a recuperação e buscar intervenções que favoreçam a saúde de maneira mais abrangente. Alimentação inadequada, sedentarismo, sono de má qualidade, perda de massa muscular, isolamento social e problemas relacionados aos medicamentos são alguns dos aspectos que merecem atenção. Isso não significa substituir tratamentos convencionais por hábitos saudáveis, mas integrar diferentes estratégias, respeitando as condições clínicas e as necessidades individuais de cada paciente.
Tratar uma doença, buscar sua cura quando possível e promover saúde são objetivos complementares. O grande desafio é fazer com que todos estejam presentes no planejamento do cuidado.
Uso inteligente dos medicamentos
Os medicamentos são ferramentas fundamentais da assistência à saúde. Quando bem indicados e utilizados adequadamente, podem controlar doenças, aliviar sintomas, prevenir complicações e contribuir para uma vida mais longa. Entretanto, especialmente entre pessoas com múltiplas doenças crônicas, a utilização de vários medicamentos exige acompanhamento contínuo. É importante avaliar se cada medicamento continua necessário, se está produzindo o benefício esperado, se a dose é apropriada e se existem reações adversas, interações ou dificuldades de adesão.
Sintomas como tontura, fadiga, sonolência e alterações gastrointestinais, por exemplo, merecem investigação, pois podem estar relacionados à farmacoterapia. O objetivo não é reduzir indiscriminadamente a quantidade de medicamentos, mas garantir que cada um tenha finalidade clínica bem estabelecida e que seus benefícios sejam considerados em relação aos possíveis riscos. Nesse contexto, o farmacêutico clínico tem papel importante na identificação de problemas relacionados aos medicamentos, na orientação dos pacientes e familiares e na colaboração com os demais profissionais de saúde para otimizar os tratamentos.
O uso inteligente dos medicamentos não significa utilizar menos a qualquer custo, mas utilizar aquilo que realmente é necessário, da maneira mais segura e eficaz possível.
Longevidade também é preservar autonomia
Viver mais é uma conquista, mas como queremos viver esses anos?
O envelhecimento pode trazer alterações fisiológicas e maior vulnerabilidade a doenças crônicas. Entretanto, a perda de funcionalidade e de independência não deve ser simplesmente aceita como consequência inevitável da idade. Preservar a massa muscular, manter alimentação adequada, praticar atividade física compatível com as condições individuais, cuidar do sono e acompanhar as condições clínicas são medidas importantes para a manutenção da capacidade funcional. Também precisamos considerar a autonomia nas atividades cotidianas, a participação social e a possibilidade de o indivíduo continuar tomando decisões sobre a própria vida. O cuidado com a pessoa idosa, portanto, não deve se limitar à lista de doenças e medicamentos. Precisa considerar sua história, suas preferências, suas limitações e, principalmente, aquilo que ela deseja preservar.
O verdadeiro propósito do cuidado
A saúde não pode ser compreendida apenas pela ausência de doenças ou pelo controle de indicadores clínicos. Ela também envolve a capacidade de realizar atividades, manter vínculos, preservar a independência e desfrutar da vida com dignidade.
Isso exige assistência integrada, na qual os diferentes profissionais compartilhem conhecimentos e objetivos, considerando o paciente como participante ativo das decisões sobre seu próprio tratamento. Talvez um dos grandes desafios da saúde contemporânea seja justamente ampliar nossa compreensão sobre o que significa alcançar bons resultados terapêuticos. Controlar a pressão arterial, manter a glicemia dentro das metas e reduzir os riscos cardiovasculares são objetivos essenciais. Mas também precisamos observar se o paciente está conseguindo caminhar, alimentar-se adequadamente, dormir bem e manter sua independência. Tratar doenças é indispensável. Buscar a cura, quando possível, é objetivo legítimo. Mas cuidar da pessoa, preservar sua funcionalidade e proteger sua autonomia deve fazer parte de toda a jornada de assistência à saúde.
Afinal, o propósito da longevidade não deveria ser apenas acrescentar anos à vida, mas também criar condições para que esses anos sejam vividos com dignidade, disposição, independência e qualidade de vida.
(Colaboração de Luiz Assunção, Farmacêutico Clínico, com mestrado em Polifarmácia & Longevidade).
Publicado na edição 11.040, sábado a sexta-feira, 10 a 16 de outubro de 2026



