Este não sofreu com a pandemia

José Renato Nalini

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Houve um brasileiro famoso que não precisou se preocupar com a pandemia. Até porque, já está no etéreo. É um dos nossos mais citados no mundo inteiro. Sua obra “Pedagogia do Oprimido” foi traduzida em inúmeros países. Influenciou e continua a influenciar educadores de todo o planeta. Em 19 de setembro completaria 100 anos, se vivo fosse. Mas continua vivo e imperecível em seu trabalho, enquanto seus detratores – que são menores do que pigmeus diante de um Golias do pensamento – serão esquecidos em breve.

Paulo Freire nasceu no Recife, em 1921. Formou-se em Direito, mas devotou-se à educação. Em 1963, passou a desenvolver uma experiência pioneira em Angicos, Rio Grande do Norte. Era método inovador de alfabetização de adultos, sempre considerando a educação como um fator de liberdade do alfabetizando.

O militarismo impediu que continuasse a sua cruzada. Foi preso, exilou-se no Chile, onde escreveu, aliás, manuscreveu, a “Pedagogia do Oprimido”, que ofereceu ao casal amigo, cujo varão fora Ministro da Educação chilena. Voltou à sua Pátria com a anistia e em 1989 foi Secretário Municipal da Educação de São Paulo, na gestão Luiza Erundina. Morreu relativamente cedo, aos 75 anos, em 1997.

Para ele, educação é ferramenta para emancipação do indivíduo e todo processo educativo tem de levar em consideração a realidade do educando. Já entendia as aulas como aprendizado recíproco: aluno aprendendo com o professor e este com o aluno.

Chamam de “Método Paulo Freire” o sistema de alfabetização de adultos que consegue fazer com que aquele inteiramente iletrado, se alfabetize com quarenta horas de exercício. Utiliza-se de palavras comuns, da rotina da vida do educando. A partir dos verbetes, vão se decompondo as sílabas e torna-se mais fácil mostrar ao educando que as várias possibilidades de junção formam o vocabulário.

A estratégia é revolucionária, porque não só ensina a ler e a escrever, mas faz com que o alfabetizando pense. Por isso é condenado por aqueles que preferem ver a população totalmente ignara, sem capacidade de julgar os desmandos, feliz com o “pão e circo”, embora um pouco preocupada porque sobra circo e falta pão. Mas tem ainda ossos e pés de galinha.

(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia paulista de letras – gestão 2021-2022).

Publicado na edição 10.618, de 20 a 22 de outubro de 2021.