Idoso, mas não morto!

José Renato Nalini

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Mundo paradoxal o deste planeta, porém mais paradoxal ainda é este nosso Brasil. Matamos mais de 60 mil jovens por ano. Enquanto isso, conseguimos estender a faixa da longevidade. Matamos jovens e salvamos velhos.
É constatável o crescimento da expectativa de vida dos brasileiros. Em 1940, era de 45,5 anos. Em 2018, a média é 76,6 anos. Significa isso que, em 2060, serão cinco milhões de brasileiros com mais de 90 anos.
O lado perverso: em 1988, o Brasil gastava 3,4% do PIB com a Previdência Social. Em 2018, despende 13% do PIB. E ainda há gente que questiona a necessidade da reforma da Previdência Social! Chegará o dia em que velhinhos não receberão proventos e suas viúvas não receberão pensão. Quem os alimentará? Quem cuidará de sua saúde, que fica a cada ano mais dispendiosa?
Os irados “donos da verdade” não querem ouvir que os brasileiros aposentam precocemente. A idade média já era baixa: 55,8 para homens e 53,1 para mulheres. Passou a 55,5 para homens e a 52,8 para mulheres. Hoje, alguém com cinquenta anos é considerado jovem. Moleque! Ainda tem muita lenha para queimar. Não pode ficar às custas do País. Nem pode obter aposentadoria fraudulenta, simulando síndrome do pânico e outras cinquenta mil tonalidades de patologias que passam incólumes pelo falível controle ou conseguem sucesso mediante uso de propina, corrupção e outras práticas que todos conhecemos.
Os jovens que pensam que não têm nada a ver com isso, estão enganados. Primeiro, se não pensarem e se não morrerem jovens, terão de sustentar os idosos cada vez mais longevos. Segundo: o Brasil será a terra dos anciãos, porque as curvas vão se encontrar: homicídios de jovens, mortes por acidente, por suicídio, por overdose, do lado da mocidade. Mais cuidado, mais vida saudável, mais prudência, do lado da ancianidade.
Quem tem juízo tem de procurar verificar o que fazer com essa legião de idosos que vai querer continuar a existir e a participar ativamente do convívio. Aprender com a população dos lugares nos quais as pessoas vivem mais e vivem bem. Pois não é saudável só pensar em asilos, em casas de repouso, em abrigos, em espaços para abrigar as mais variadas síndromes demenciais.
Alguns exemplos: em Loma Linda, na Califórnia, Estados Unidos, a comunidade da Igreja Adventista do Sétimo Dia propicia a seus fieis rigorosas diretrizes de alimentação, exercício e descanso. A Igreja incentiva o vegetarianismo, a prática de caminhadas, a abstenção de fumo e de álcool. Os que seguem a receita vivem dez anos mais do que a média dos americanos.
Em Nicoya, na Costa Rica, além da combinação de frutas, legumes e milho, toma-se muita água rica em cálcio e magnésio. Dorme-se mais cedo e valoriza-se a crença em Deus. A região é a que ostenta a mais elevada concentração de centenários do sexo masculino.
Na Sardenha, Itália, o diferencial é o humor. A dieta é baseada em vegetais, frutas, pão, massa fresca, vinho tinto e leite de cabra. São inúmeros os que atingem um século e continuam a viver bem.
Já na ilha de Icária, na Grécia, foi localizada a maior taxa de pessoas que alcançam os 90 anos, conjugada com a menor taxa de demência ou enfermidade mental da senilidade. São comunidades que só consomem o que cultivam, banindo o veneno químico existente na produção do restante do mundo.
Consumir soja é o que recomendam os residentes em Okinawa, Japão. Além disso, dedicam-se à jardinagem, partilham as refeições sentados sobre tatame e encontram sentido para a existência, qualquer que seja a sua idade.
É lógico que cada qual tem sua orientação e quer viver com qualidade de vida. Mas mirar-se no exemplo de outras comunidades é salutar.
Saudável mesmo é se movimentar, não deixar a cabeça ociosa, que ela vira “oficina do demônio”, como diziam os antigos. Por sinal que o demônio parece ter desistido de mudar os teimosos irados e os turrões. Já não precisam dele. Aprenderam sua lição.

(Colaboração de José Renato Nalini, Reitor da Uniregistral, docente da UNINOVE, autor de “Ética Geral e Profissional” e Presidente da Academia Paulista de Letras.)

 

Publicado na edição nº 10455, de 15 a 17 de janeiro de 2020.