Impunidade corre solta

José Renato Nali"i

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Em apenas dois meses deste fatídico 2018, a Floresta Nacional do Jamanxim teve desmatada uma área mais do que o dobro daquela destruída em 2017. Isso decorre da pressão de grileiros e da bancada ruralista, responsáveis diretos pela destruição de 57 km quadrados de cobertura vegetal entre abril e maio. Quem apurou foi a ONG Imazon – Instituto do Homem e Meio Ambiente, baseando-se em imagens de satélite. Para que se tenha uma ideia, essa área equivale a 36 Parques do Ibirapuera na capital paulista.
O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade lamenta que a devastação tenha voltado a aumentar. É a segunda unidade de conservação que mais perde com desmatamento, atrás da Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu, que perdeu 123 quilômetros quadrados desde agosto de 2017.
Colaborou com isso uma Medida Provisória 756, editada no final do ano de 2016 pelo Presidente Temer, para legalizar a grilagem no Pará. Essa normativa contraria o relatório de 2009 do Instituto Chico Mendes, que era contra a diminuição da área. Além do Executivo Federal, o Parlamento também ajudou a dizimar o ambiente. A redução foi ampliada e chegou a quase 40% dos 13.019 quilômetros quadrados. Tudo sob argumento de regularizar a ocupação das terras.
Ambientalistas mostraram o absurdo da medida. Até Gisele Bundchen recorreu ao seu prestígio internacional para mostrar a insensatez da providência. Temer revogou a MP 756, mas mandou ao Congresso o PL 8.107, retirando 349 mil hectares da Floresta Nacional, ou seja, quase 30% dela.
O Brasil já acabou com a maior parte de sua mata. Os criminosos confiam na conivência do governo, que desmonta os equipamentos de fiscalização, cede ao agronegócio, considerado “a salvação da lavoura”, não coíbe a grilagem que é também ação delinquencial.
Poucos os empresários que têm cultura ecológica suficiente ao reconhecimento de que a floresta ajuda a lavoura. A maior parte deles quer lucro fácil, quer colher depressa e não enxerga valor algum numa árvore.
O fato é que ninguém sabe “fazer” uma árvore. Aquela região foi aquinhoada no decorrer dos séculos com o desenvolvimento de mata exuberante e cerrada, com exemplares cuja idade sequer pode ser aferida. Mas uma motosserra é suficiente para, em alguns minutos, destruir essa dádiva natural, essencial à sadia qualidade de vida e que prejudica o próprio homem, animal cruel e irracional, embora, pretensiosamente, sustente o contrário.
Triste país esse que não respeita a natureza. Mas também não respeita outros valores e nem as múltiplas espécies de vida. Inclusive a sua própria.

(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente universitário, autor de “Ética Ambiental”, 4ª ed., RT-Thomson Reuters).

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Publicado na edição 10350, de 15 e 16 de janeiro de 2019.

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