Interesses conflitantes – e uma Nação no meio

José Mário Neves David

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O mundo está em compasso de espera com as recentes e preocupantes movimentações envolvendo a colocação de tropas russas nas fronteiras com a Ucrânia, país do leste europeu que, desde a conquista de sua independência da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), no início dos anos 1990, encontra-se espremido e dividido, figurativa e literalmente, entre o mundo livre e a opressão.

Os detalhes desta história, suas implicações e o envolvimento direto das maiores potências econômicas e/ou militares do planeta remetem aos desdobramentos pós-Segunda Guerra Mundial, da guerra fria e do apogeu, declínio e dos delírios de grandeza de impérios não mais existentes.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em meados dos anos 1940, os Aliados, grupo formado majoritariamente por Estados Unidos da América (EUA), Reino Unido, União Soviética, China e França, que haviam derrotado o Eixo (cujos personagens principais eram a Alemanha, o Japão e a Itália), começaram a medir forças e influência entre si, com destaque para a doutrina norte-americana plasmada nas balizas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) nas Américas e na Europa ocidental, em contrapartida à dominação e expansão soviética, resultante na outrora poderosa URSS.

Em tal contexto, a OTAN, hoje composta por 30 países aliados e alinhados à visão de mundo norte-americana, passou a abordar também, de forma sutil ou nem tanto, as nações e povos que outrora se encontravam alinhados à URSS, de forma a retirar apoio e muitas outras questões – como riquezas minerais – da área de influência da URSS e, com a queda do império soviético, da Rússia.

A Ucrânia, pelas similitudes culturais, sociais e pela proximidade geográfica com Moscou, compôs a URSS por décadas, até, conforme já pontuado, declarar formalmente independência do bloco soviético em 1991, colapsado à época. Nesse contexto, houve uma ruptura, muito mais ideológica do que formal, da Ucrânia com a Rússia, ainda que fossem vizinhos, fato que nunca foi bem encarado pela Rússia.

Desde então, apesar da adesão ao capitalismo, da abertura comercial e da adoção de características do estilo de vida do ocidente sob a batuta dos EUA, Kiev, a capital, e o povo ucraniano sempre estiveram direta ou indiretamente sob a vigilância dos russos, até por representarem, do ponto de vista do território, uma barreira natural aos avanços da OTAN – e, por consequência, dos EUA – sob o “quintal” de atuação, domínio e influência geopolítica da Rússia.

Pois bem, o que se observa na crise atual, em que centenas de milhares de soldados russos se encontram na fronteira com a Ucrânia, além de destacamentos militares estacionados na Bielorrússia, aliada de primeira hora de Moscou, é uma disputa geopolítica entre antigos inimigos – no caso, EUA e Rússia, herdeira do que sobrou da URSS – por influência regional no leste europeu, além de uma, possivelmente, preocupação legítima da Rússia em não querer ver os EUA, através da OTAN, estacionados em sua fronteira, já que Rússia e Ucrânia possuem uma extensa fronteira terrestre conjunta, caso a Ucrânia leve adiante suas intenções de se aliar à OTAN e aos interesses europeus e, principalmente, norte-americanos.

Vale destacar que as tensões entre ucranianos e russos se arrastam de forma mais explícita desde 2014, quando a Rússia, sob o pretexto de atender aos anseios dos habitantes da região, historicamente ligados mais à potência militar do leste do que à Ucrânia, ocupou e anexou a Criméia, região até então pertencente ao território ucraniano, fato que apertou o gatilho de uma guerra civil no leste da Ucrânia que já deixou um rastro de mais de 14 mil mortos, entre civis, militares e milícias paramilitares financiadas pela Rússia.

Assim, a tensão atual entre Ucrânia e Rússia remete a um pano de fundo muito mais amplo do que simples questões culturais, de adesão ou não à OTAN e de anseios de expansão territorial, englobando contornos históricos, ideológicos, brigas por poder entre potências econômicas e militares e influência e domínio regional no leste europeu e no Velho Continente como um todo, disputa essa travada em tabuleiro geopolítico neutro para ambos os jogadores – no caso, a Ucrânia, opondo russos e norte-americanos –, colocando o povo ucraniano, seus interesses e desejos em segundo plano. Uma disputa geopolítica histórica que pode resultar em uma tragédia social ainda maior.

(Colaboração de José Mário Neves David, é advogado e administrador de empresas. Contato: jd@josedavid.net)

Publicado na edição 10.642, de sábado a terça-feira, de 5 a 8 de fevereiro de 2022.