Investir no virtual

José Renato Nalini

0
12

A calamitosa situação planetária sugere que os céticos em relação ao mundo virtual terão de render-se ao inevitável. Embora jurássico, nascido na primeira metade do século 20, nunca me assustei com a profunda mutação provocada pela cibernética. O mundo é outro, queira-se ou não.
Lembro-me de quando resolvemos entregar a cada magistrado daquele que foi o melhor tribunal do Brasil, o saudoso TACRIM, um notebook. Houve quem dissesse que entregaria à filha, porque ela era louca por possuir a novidade. Outro afirmou que não utilizaria nas sessões plenárias. Com efeito, na primeira vez após isso, as pilhas de xerocópias com as peças dos processos em julgamento não desapareceram.
Enquanto o Judiciário hesitava, resistia, as delegações extrajudiciais percebiam que o futuro seria diferente. Quanto menos papel melhor. Quanto menos ajuntamento de pessoas, melhor. Para desespero dos cultores da síndrome de Maria Betânia: “olhos nos olhos”.
A necessidade é a mãe das invenções. Chega o corona vírus e obriga a contenção. Oportunidade excelente para ampliar o uso da inteligência artificial, da robótica, da comunicação virtual. Enterrem-se os sonhos das grandes torres de concentração de pessoas. Hoje, menos é mais. Hora dos criativos e audaciosos oferecerem propostas sedutoras para um Brasil entre assustado e angustiado, mas com imensa parcela de irresponsáveis.
Continuar a se servir de tudo o que a comunicação virtual permite. Não ir mais a banco, nem a supermercado, nem a qualquer outro lugar. É possível dinamizar o crédito, admitindo – por exemplo – a alienação fiduciária sucessiva. Por que um imóvel de grande valor só pode servir a uma operação de crédito fiduciário? Ele pode servir para obtenção de financiamento para várias finalidades, desde que o seu valor seja suficiente a garantir todas elas.
Chegará logo a home equity e o mundo dos juristas, muitos dos quais com mentalidade labiríntica e complexa, terá de fornecer instrumentos de simplificação, de flexibilização, sem transigir com a utópica “segurança jurídica”.
Por sinal, de que adianta hoje falar em “segurança jurídica”, se a insegurança física foi aquilo que a negligência nos impôs, na medida em que preferimos cuidar de armamentos e não de pesquisa científica?
Talvez tenhamos a condição de aprender com a desgraça. A aceitar que o excesso populacional nem sempre é proveitoso para a sobrevivência de uma espécie que não hesita em destruir seu próprio habitat, envenenar o único líquido imprescindível para viver e perdeu a compaixão ao conviver com o crescente número dos excluídos e dos desprezados pela sorte.

(Colaboração de José Renato Nalini, Reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020).

Publicado na edição nº 10545, 13 a 15 de janeiro de 2021.