Jornadas injustas

Wagner Zaparolli

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A história da saúde humana não teria experimentado uma evolução tão rápida nos dois últimos séculos, não fosse a providencial ajuda dos animais, involuntária é claro.

Maria Júlia Manso Alves e Walter Colli, ambos pesquisadores na Universidade de São Paulo, escreveram um artigo há alguns anos sobre o tema da utilização de animais em testes e pesquisas.

De acordo com o artigo na época, a utilização anual de animais perfazia uma média de 15 milhões nos Estados Unidos, 11 milhões na Europa, 5 milhões no Japão, 2 milhões no Canadá e quase 1 milhão na Austrália. Somados, esses números nos dias de hoje já superaram a casa dos 100 milhões. Para ser mais preciso, estima-se que no mundo atualmente se use cerca de 115 milhões de animais por ano.

Os números brasileiros não são conhecidos oficialmente, mas parece ser insignificante perante os números internacionais, a despeito da extensa fauna encontrada em território nacional.

Do total de animais experimentais, 80% são roedores, como ratos e camundongos, 10% são peixes, anfíbios, répteis e pássaros, e o restante se divide em coelhos, cabras, bois, porcos, cachorros, gatos e macacos. O objetivo principal da utilização de animais é substituir o ser humano como objeto de experimentos na preparação e controle de qualidade dos medicamentos e de inúmeros outros produtos.

O dilema e a ética

No mundo existe um grande dilema sobre a utilização de animais em experimentos científicos. Esse dilema remonta o século 18, quando o filósofo Jeremy Bentham proferiu uma frase marcante que dizia “A questão não é se os animais podem raciocinar ou falar, mas se podem sofrer”. A preocupação com o sofrimento dos animais logo extrapolou a esfera científica para estimular o seio da sociedade, pouco informada, a combater e impedir a qualquer custo, o uso dos animais pela ciência. Dos males o menor. De todo esse falatório tratou-se de criar leis e princípios básicos internacionais que contemplam o uso ético dos animais em laboratório. Citamos alguns itens desses princípios: os animais devem ser substituídos por modelos alternativos sempre que possível; todos os experimentos que envolvem animais devem ser relevantes; deve-se utilizar o mínimo de animais necessários; e, os animais devem receber conforto adequado e alívio (anestesia) em procedimentos que causam dor.

É óbvio que leis e regras por si só não têm valor algum se os cientistas não utilizarem um princípio básico de civilidade que é a ética. Mesmo na ciência isso nem sempre acontece. A ganância por prêmios, verbas e reconhecimento leva muitos pesquisadores por caminhos tortuosos, os quais não só maculam o nome da ciência como colocam a opinião pública em pé-de-guerra contra as pesquisas experimentais.

Equilibrando a balança

Sem os animais como cobaias talvez não tivéssemos ao nosso dispor medicamentos como anestésicos, antibióticos, anticoagulantes, insulina e drogas para controlar a pressão sanguínea ou a rejeição em transplantes. Provavelmente não seria possível testar vacinas para difteria, poliomielite, meningite bacteriana, entre outras. Certamente procedimentos como transplantes, transfusão de sangue, diálise renal e substituição de válvulas cardíacas seriam inviáveis.

Entretanto, com o avanço da ciência e principalmente da tecnologia, os grandes laboratórios e empresas estão testando inúmeras alternativas aos animais cobaias, como por exemplo, o uso de tecidos humanos, modelos de computador, métodos in vitro, cultura de células e estudos voluntários, para citar apenas alguns.

Países como Austrália, Israel, Índia, Guatemala, Noruega, Nova Zelândia, Suíça e Turquia, já baniram os testes em animais. O Brasil também avançou nesse tema. Em 2014 o congresso aprovou o projeto de lei complementar PLC70/2014 que proíbe a utilização de animais em testes para a produção de cosméticos, perfumes e produtos de higiene pessoal. Certamente são passos importantes na libertação dos animais dessa jornada de sofrimento e dor, embora ainda estejamos bem longe do zero uso.

Para conhecimento, figuram como principais selos e certificações livres de animais o Leaping Bunny, Cruelty Free, Not Tested on Animals, Certified Vegan, Vegan Society e Certificado SVB Vegano. Quem quiser saber se sua marca favorita de cosmético ou higiene usa ou não animais em testes, pode consultar o site https://crueltyfree.peta.org/.

Talvez você vá se surpreender.

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).

Publicado na edição nº 10.739 de quarta, quinta e sexta-feira, 8, 9 e 10 de março de 2023