Mercantilização ou profissionalização do futebol?

José Mário Neves David

0
138

Recentemente anunciada, posteriormente suspensa e já em acelerado processo de deterioração, a Superliga europeia de clubes de futebol despertou acalorados debates ao redor do mundo. Os detratores da ideia ressaltam os interesses majoritariamente econômicos e políticos dos clubes envolvidos, ao passo que os defensores alegam que sua criação contribui para uma maior profissionalização e desenvolvimento do futebol, em uma discussão que envolve paixão e razão em níveis elevados.

De início, doze dos maiores, mais ricos e campeões clubes europeus de futebol – da Inglaterra, Chelsea, Tottenham, Arsenal, Liverpool, Manchester United e Manchester City; da Espanha, Atlético de Madrid, Real Madrid e Barcelona; e da Itália, Juventus, Milan e Internazionale de Milão – formariam uma liga própria, a qual seria disputada por quinze a vinte equipes de forma segregada das normas e obrigações contratuais e comerciais impostas pela UEFA, a poderosa confederação europeia de futebol, com premiação conjunta garantida de € 3,5 bilhões por temporada. Havia, inclusive, a proposta de alterações em regras do esporte, tais como a redução do tempo das partidas.

Após o anúncio de criação da liga, realizado no último domingo, muitos – torcedores, inclusive – se posicionaram contrariamente ao novo torneio. Os argumentos de oposição são variados, porém os principais são: (i) a Superliga criaria uma casta de poucos clubes de futebol privilegiados, que ganhariam muito dinheiro e poder, cabendo aos demais as migalhas; (ii) os clubes fundadores, já muito ricos e poderosos, ficariam ainda mais ricos e fortes politicamente, o que criaria um abismo financeiro e de poder com os demais clubes e federações; (iii) a libertação das normas da UEFA e da FIFA abriria brechas para criações inusitadas no esporte, como a alteração de regras seculares do futebol e a eliminação de conceitos fundamentais ao esporte profissional, como o acesso, rebaixamento e os ônus da derrota; e (iv) possivelmente, com a adoção de um forte apelo financeiro aos clubes participantes, haveria maior desinteresse em relação aos campeonatos locais, o que prejudicaria, inclusive, a competitividade das seleções nacionais.

Do lado dos que defendem a ideia, são suscitados os argumentos de que a criação da nova liga liberta os clubes de regras e obrigações anacrônicas impostas pela confederação europeia e a FIFA, além de permitir que os clubes definam seus próprios destinos e possibilitar a adoção de regras que venham a modernizar e profissionalizar o esporte, mundialmente conhecido e praticado e que desperta gigantes paixões. Ademais, os clubes estariam dispostos a realizar generosas contribuições financeiras para entidades filantrópicas e para o desenvolvimento do futebol ao redor do mundo, uma preocupação social e com o esporte que a UEFA e a FIFA, em tese, não teriam tido até então.

Afora as paixões envolvidas nas discussões acerca deste esporte, o mais popular do mundo, parece evidente que a criação da Superliga daria ensejo a um clube bastante privativo e seleto, cuja participação seria, basicamente, inviabilizada a parcela relevante dos clubes de futebol europeus. No mais, eventual adoção de novas regras no esporte sob o pretexto de modernizar o futebol poderia criar assimetrias, com regras diferentes entre o futebol europeu e os demais torneios do mundo, tal como já ocorre no basquete, tendo a NBA americana regras distintas das normas adotadas pela FIBA, a federação internacional.

Neste contexto, a Superliga, que já nasceu sob forte crítica e cuja realização está suspensa em razão da desistência momentânea de 8 dos doze clubes por força da repercussão negativa, é tema de acalorados debates, principalmente em razão da evidente e acelerada mercantilização do futebol, um negócio bastante lucrativo em todo o mundo. A profissionalização e a modernização do esporte são sempre bem vindas e necessárias para a atratividade do produto, porém tais mudanças não podem ser feitas às custas da sobrevivência dos pequenos. O remédio amargo, sob a pretensão da cura, não pode matar o paciente.

(Colaboração de José Mário Neves David, advogado e administrador de empresas. Contato: jd@josedavid.net).