O mundo observa hoje um conjunto de fatores que geram instabilidade e incerteza quanto ao futuro. Muitas variáveis ocorrendo ao mesmo tempo, as quais produzem solavancos de ordem econômica, política e, principalmente, social.

No campo econômico, há uma confluência de fatores – alguns deles, já abordados em artigos passados – que trazem certa apreensão ao mercado e às pessoas em todo o planeta. Uma onda inflacionária de magnitude mundial assola o cotidiano das famílias e das empresas, fruto de quebras de cadeias logísticas decorrentes da pandemia, da injeção maciça de capital nas economias desenvolvidas e da eclosão de conflitos militares no leste europeu, dentre outros fatores marginais. O cenário atual favorece o aumento imprevisto de preços de insumos básicos de produção e encarece – e, naturalmente, reduz – o consumo das famílias, levando a um ciclo vicioso que deve ser combatido com medidas duras e nem sempre populares, como aumento de juros e diminuição de estímulos pelos bancos centrais.

Na seara política, observa-se uma alteração de rumo de natureza ideológica e uma insatisfação da população com as dificuldades econômicas do cotidiano. Boa parte das democracias da América Latina estão elegendo líderes de tendência centro-esquerdista, depois de um boom de presidentes eleitos com viés mais direitista e que implementaram políticas de arrocho que afetaram a economia, o social e o ambiental, dentre outros segmentos. A tendência atual mais à esquerda do continente acompanha uma onda mundial, capitaneada pela eleição de Joe Biden nos Estados Unidos e na alteração de rumos e perfis, especialmente nos Parlamentos europeus.

A confluência de fatores inflacionários, que demandam medidas duras de contenção e de esfriamento da economia, as quais geram desemprego e miséria, somados a um sentimento de insatisfação popular, que pode ser observada especialmente na alteração do Texto Constitucional no Chile, um País até poucos anos atrás considerado um oásis de desenvolvimento na América Latina, expuseram as dificuldades enfrentadas pela população mais carente na lida com os desafios do cotidiano e resultaram em alterações de rota política no Cone Sul, que podem resultar em alternância de poder também no Brasil, a partir das eleições de outubro próximo. O contexto mundial, somado à corrida eleitoral no Brasil, geram instabilidade doméstica e incerteza quanto a algumas políticas públicas que afetam diretamente o investimento e o aquecimento da economia e a melhora da vida das pessoas no País.

Por fim, no campo social, o aumento do custo de vida em praticamente todo o mundo, cumulado ao crescente desemprego, ao conflito militar na Ucrânia e às consequências ainda presentes da pandemia geraram distúrbios e insatisfações, acarretando alternância de poder – que é boa em um contexto democrático, mas perigosa em um ambiente conflagrado, vez que abre oportunidades para extremistas e populistas – e a adoção de medidas inadequadas do ponto de vista fiscal e do equilíbrio das contas públicas. O descontentamento social leva às mudanças necessárias, porém pode levar também à adoção de políticas e medidas que, a médio e longo prazo, podem trazer maior sofrimento à população (o famoso “remédio” que trata os sintomas, mas não ataca as causas e mata o paciente).

Nesse contexto de instabilidade e incertezas, é importante que haja equilíbrio e certa dose de conservadorismo. Muitas das soluções para os problemas, especialmente os de natureza econômica, estão sendo implementadas e já começam a surtir efeito (apesar de alta, a inflação está contida no Brasil, o que não se observa no mundo desenvolvido), porém há muitas variáveis em jogo e não se sabe ao certo o que vem pela frente. O conflito no leste europeu vai durar até quando? Qual será o resultado das eleições de outubro e, principalmente, quais medidas serão implementadas pelo governo eleito? A inflação em nível mundial será persistente até quando, e no caso de dificuldade no controle, quais medidas ainda mais amargas deverão ser tomadas? Há muita coisa em jogo.

Assim, o momento é de atenção. Há boas oportunidades de investimento, porém o horizonte ainda é cinza. A discussão de soluções políticas é fundamental, porém não se pode esperar um “salvador da pátria” (independentemente de quem ganhe as eleições, o ano de 2023 promete ser difícil e desafiador). Deve-se sempre estar atento e preparado para solavancos ainda maiores, pois a realidade é confusa e o futuro é incerto. Seja otimista, mas prepare-se sempre para um cenário difícil.

(José Mário Neves David é advogado e consultor. Contato: jose@josedavid.com.br).

Publicado na edição 10.677, de sexta a terça, 24 a 28 de junho de 2022