Mudam-se os hábitos

José Renato Nalini

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E sempre para pior! Quem viveu uma época em que havia polidez, bons modos, delicadeza, estranha a rápida deterioração dos costumes que acomete a sociedade.
Havia rituais próprios ao ser humano, qualquer fosse ele. A pobreza digna comportava-se como nobre. A verdadeira nobreza é da alma, não do sangue. Por isso não havia distinção nas praxes de que se serviam pobres, remediados e ricos para evidenciar sua boa educação de berço.
Exemplo: as pessoas se visitavam. Era agradável conversar sem finalidade específica, tomar um café, saborear uma fatia de bolo e sentir pertencimento. Ou seja: esta é a nossa gente. Com ela me sinto bem.
Mas havia visitas especiais. Por ocasião do nascimento de um bebê. A presença pessoal, o presentinho, os votos de uma feliz trajetória por este “Vale de Lágrimas”. Também quando dos casamentos. Os noivos levavam ambos, em mãos, o convite. E os convidados retribuíam com visita pessoal, levando o presente para o jovem casal. Formava-se uma “corbeille”, assim se chamava a exposição das lembranças de parentes e amigos para o início de um novo lar.
Visitas incômodas eram as que se faziam aos enfermos. Mas era o dever da amizade. Observância da lição evangélica “Estive doente, e não me visitaste”. Mais desconfortável ainda, a visita de pêsames.
A família do falecido sabia que, durante as semanas seguintes ao sepultamento, os amigos iriam aparecer para o abraço, para consolar, para mostrar solidariedade. Era de bom tom. Ninguém deixava de fazê-lo.
E hoje? Não se chega em casa de alguém a não ser com um objetivo e mediante prévio aviso. Ninguém tem tempo para “conversa mole”. Os convites de casamento chegam por correio ou e-mail. As redes sociais cuidam de encaminhar os presentes para o endereço que os noivos indicarem. Ou fazer os depósitos na conta-corrente de um deles ou do casal. Os agradecimentos também são eletrônicos.
Não se visita doente. Nem se usa mais visitar a família que perdeu um ente querido. Vai-se, o quando muito, à missa de sétimo dia. Nesta, a pressa faz abraçar o sobrevivente ferido antes mesmo da celebração. Chega a haver empurra-empurra. Isso quando a família continua com algum poder ou prestígio. Quando não, a missa conta com os familiares mais próximos, nem todos, porque hoje o sincretismo divide os núcleos em várias confissões ou ausência delas, mais o celebrante.
Triste verificar que o consumismo egoísta impera até mesmo nesses momentos de dor. Triste ouvir de jovens carreiristas quando sabem de um falecimento: “Era da ativa?”, indagando se ainda pertencente a qualquer quadro privilegiado de carreira jurídica. Quando tomam conhecimento de que é aposentado, faz-se um muxoxo, um levantar de ombros, às vezes seguido de um “já era velho!” ou o generoso “descansou”.
Mudam-se os tempos. Mudam-se os hábitos. Degradação da espécie ou o apocalipse moral, que sepulta caridade, generosidade, solidariedade, fraternidade e outros “ades” tão presentes no discurso, tão ausentes na prática.

(Colaboração de José Renato Nalini, Reitor da Uniregistral, docente universitário, parecerista e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2019/2020.)

 

Publicado na edição nº 10445, de 20 a 22 de novembro de 2019.