Muito além da imaginação

Wagner Zaparoli

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Quem nunca ouviu falar em A Volta ao Mundo em Oitenta Dias ou Vinte Mil Léguas Submarinas?
Há mais de cem anos morria na cidade de Amiens, França, o autor desses títulos, um dos escritores mais lidos do mundo, cujas obras chegaram a ser traduzidas nos cinco continentes e em todas as línguas cultas. Falo de Júlio Verne.
Esse furacão de vendas, entretanto, demorou a achar o caminho definitivo da literatura, embora o fizesse ainda na tenra idade. Primeiro enveredou-se pelo direito, herança do pai Pierre. Depois interessou-se pelo teatro e passou a escrever peças. Por fim, apaixonou-se pelos avanços industriais, o que o levou a, finalmente, encontrar o seu caminho na literatura imaginativa e visionária dos grandes escritores de romances.

O despertar
Jules Verne (seu nome original) nasceu na cidade de Nantes em fevereiro de 1828. Sua infância e adolescência se fizeram espelho do cotidiano de uma cidade do interior, calma, tranqüila e pacata, embora costumasse explorar de barco as costas marítimas da região, em companhia do irmão Paul, a quem considerava mais do que um irmão, um verdadeiro amigo e confidente.
Sua iniciação como escritor amador deu-se aos 12 anos. Escrevia poesia de qualidade muito duvidosa (como ele mesmo admitia), apesar de dedicar muito tempo a essa atividade.
Verne adorava observar o funcionamento das máquinas a ponto de gastar horas em pé, olhando uma delas funcionar. Sempre que viajava à casa de campo da família em Chantenay, visitava a usina Indret, vizinha à casa, e lá ficava como que hipnotizado vendo as máquinas trabalharem.
Aos 17 anos, iniciou-se nos escritos de tragédias, comédias e romances, mas sem grandes repercussões. Aos 20, mudou-se para Paris e direcionou os seus esforços na criação de peças de teatro, sendo algumas delas encenadas nos palcos da cidade, principalmente no Théâtre Historique, pertencente a Alexandre Dumas.
Aos 25 anos, finalmente escreve seu primeiro romance científico chamado “Cinco Semanas em um Balão”. O sucesso foi imediato, tanto que o livro foi traduzido em cinco línguas da Europa. Nascia ali o grande Julio Verne, aquele que viria a levar milhões de leitores pelo mundo, a sonhar com viagens ao espaço, ao centro da Terra e ao redor dela.

Uma rotina exemplar
“Levanto-me todas as manhãs antes das 5 horas – um pouco mais tarde, talvez, no inverno – e às 5 horas já me instalo na minha escrivaninha até às onze horas. Trabalho muito lentamente e com o maior cuidado, escrevendo e reescrevendo até que cada frase tome a forma que desejo”. Assim descreve Verne, numa entrevista realizada em janeiro de 1894, o seu método de trabalho do qual faria uso disciplinado por anos a fio.
Logo depois do sucesso de seu primeiro romance científico, Verne foi convidado por Pierre Jules Hetzel – o editor mais famoso da França na época – a fazer um contrato no qual receberia uma quantia em dinheiro e, em troca, escreveria dois livros por ano. Para atingir esse objetivo, Verne tornou-se um obstinado em relação à sua rotina.

A base científica
Por mais paradoxal que possa parecer, Verne sempre afirmou que nunca tivera uma base científica para escrever os seus livros. Por exemplo, o seu primeiro romance de sucesso narra uma viagem de uma semana pela África, em um balão. Verne nunca havia andado em um balão até então e só viria a fazê-lo muito tempo depois por apenas alguns minutos. Então, qual era o segredo?
Pois bem, ele habitualmente lia cerca de quinze jornais diferentes, várias revistas e os boletins das sociedades científicas disponíveis na época, numa tarefa que lhe consumia cerca de quatro a cinco horas diárias. Esse conjunto de informações somado aos inúmeros livros que devorava (seu autor predileto era Charles Dickens) constituía sua base de informações. Mas o segredo mesmo estava em sua criativa imaginação, poucas vezes encontrada em outros escritores. De uma informação singela, ele conseguia criar um cenário futurista, no qual os leitores podiam literalmente viajar.

A amargura maior
Atualmente, a obra de Julio Verne é a quarta mais traduzida do mundo, perdendo para a Bíblia e os escritos de Shakespeare e Karl Marx. Ainda em vida, Verne sempre foi um sucesso de vendas e recebeu diversos prêmios da Academia Francesa de Letras. Apesar desse destaque nacional e mundial, Julio Verne morreu com uma grande amargura, talvez a maior de toda a sua vida: nunca ter sido aceito como membro da Academia de Letras.
Ele morreu em março de 1905. Ao todo escreveu oitenta romances e montou quinze peças de teatro.
E em épocas de pandemia e quarentena, nada como um bom livro para mitigar a solidão. O site http://www.dominiopublico.gov.br/ oferece obras digitais de Júlio Verne, entre outros autores, gratuitamente. Acesse e confira.

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).

 

Publicado na edição nº 10507, de 5 a 7 de agosto de 2020.