
E, quando cair, talvez seja tarde demais. O Parlamento brasileiro não percebeu que a maior ameaça a recair sobre a humanidade é o aquecimento global. Não só aprova o PL da Devastação, como estimula a exploração de petróleo na foz do Amazonas, procura desestabilizar a sólida estrutura de proteção ecológica iniciada na década de setenta e formalmente consolidada com a Constituição Ecológica de 1988.
A elaboração do Orçamento de 2026 é a mais cabal prova disso. Os deputados federais e senadores destinaram míseros 0,58% das emendas individuais ao Orçamento, para ações ligadas ao meio ambiente. Isso significa reservar 154 milhões – o que parece bastante – mas é quase nada. Metade de um por cento, de uma proposta de 26,6 bilhões.
Isso foi apurado pelo INESC – Instituto de Estudos Socioeconômicos, a demonstrar a pouca importância que os representantes do povo dedicam a questões como gestão de riscos e desastres, enfrentamento das emergências climáticas e iniciativas urbanas de adaptação. Já nem se pode falar em mitigação e atenuação. Agora é adaptar as cidades para que não ocorram tantas mortes em virtude de enchentes, inundações, deslizamentos e desmoronamentos. Sem falar na morte silenciosa causada pelas ondas de calor e as dolorosas enfermidades geradas pela atmosfera gravemente envenenada.
O que os parlamentares quiseram com essa escassa destinação? Quase todas são endereçadas à implementação da agenda nacional de proteção, defesa, bem-estar e direitos animais. É óbvio que todos os viventes merecem atenção e proteção. Mas a prioridade precisaria contemplar a indigência ecológica a que estão relegados milhões de semelhantes: os que habitam as ruas, as palafitas, as favelas, os cortiços, as moradias preferencialmente merecedoras do cataclismo climático. Aqui está muito clara a “opção preferencial pelos pobres”. Embora as adversidades climáticas sejam democráticas e atinjam a todos, os que mais sofrem são os miseráveis, os indigentes, os excluídos, os desabonados da sorte.
Ignoram a urgência do saneamento básico, de investir no programa “Água em quantidade e qualidade para sempre”, diante de gravíssima crise de escassez hídrica e de séria contaminação daquela que resta. Por sinal, insuficiente para atender à demanda de uma população que cresce e precisa de água para sobreviver.
É o momento de contemplar as próximas eleições e escolher quadros afinados com a urgência ecológica. Sem isso, quando a ficha cair, talvez já não haja quem possa lamentar. A experiência humana sobre o planeta mereceria melhor tratamento.
Veneno não faz bem
Parece óbvio afirmar que veneno é prejudicial. Mas, de acordo com o comportamento da imensa maioria das pessoas, isso não é assimilado na vida cotidiana. Continuamos a consumir quantidade enorme de alimentos contaminados. Pois o uso excessivo de agrotóxicos não impacta só o ambiente. Compromete a saúde humana.
Intoxicações, câncer, alterações neurológicas, respiratórias, cardiovasculares e malformações são apenas algumas dentre as principais consequências produzidas pelos agrotóxicos.
Um levantamento da FAO – Organização das Nações Unidas de Alimentação e Agricultura demonstra que o Brasil é o país com o maior consumo de agrotóxicos, seguido pelos Estados Unidos e pela Indonésia. Em 2021, 719,5 mil toneladas de agrotóxicos foram utilizadas em lavouras nacionais, o que mostra que o Brasil utiliza mais químicos sintéticos que os Estados Unidos e a China juntos.
Não é só a quantidade do veneno utilizada na agricultura. Lamentavelmente, o Brasil utiliza agrotóxicos de forte intensidade e proibidos internacionalmente, como o tebuconazol. É um inseticida proibido na Europa porque pode provocar alterações no sistema reprodutivo e malformação fetal.
As consequências desse comportamento lesivo são de múltipla ordem. Não são apenas os trabalhadores rurais que manuseiam o veneno de forma direta. Os moradores de regiões próximas também são afetados.
Pensa-se que o herbicida seja útil para eliminar pragas e ervas daninhas. Mas ele não atinge apenas o inimigo. Ele se espalha. E é altamente nefasto principalmente para os mais vulneráveis, como crianças e idosos. Empesteiam o ar, o solo, as águas dos rios e nascentes e mesmo os aquíferos, que não estão visíveis a olho nu.
É incrível que pesquisadores, cientistas, pessoas inteligentes e criativas, não promovam campanhas para proibir o uso de venenos e deixem de incentivar a disseminação da agricultura orgânica. O custo ainda maior dessa produção natural compensa a proteção da saúde de todos. E a preservação da qualidade de vida do planeta. Enquanto isso não for política pública séria e consistente, incumbe a cada família zelar pela saúde de seus membros. Pense nisso.
(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo).
Publicado na edição 11.016, quarta, quinta e sexta-feira, 1º, 2 e 3 de julho de 2026 – Ano 102





