Não se leva dinheiro no caixão

José Renato Nalini

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Warren Buffett, dono da Berkshire Mathaway, doou 2,8 bilhões de dólares para a Fundação Bill Gates, além de financiar bolsas de estudo em sua própria instituição. Bil e Melinda Gates doaram 2,5 bilhões para a maior organização filantrópica do mundo. O propósito: combater a malária, a aids, a tuberculose e as causas ambientais.
Michael Bloomberg, ex-prefeito de NY, doou 702 milhões de dólares para causas ambientais, artes e desenvolvimento de políticas locais e de empoderamento de mulheres africanas. A Família Walton, sucessora do criador da Walmart, doou 536 milhões de dólares para a educação, causas ambientais e outras iniciativas edificantes no Arkansas. George Soros doou 531 milhões de dólares para a Open Society Foundations, para fortalecer a democracia, liberdade de expressão e defesa de minorias.
E aqui no Brasil? Quem se aproxima disso? Por incrível que pareça, pobre doa. Rico é mais difícil. Uma pesquisa recente apurou que 78% dos brasileiros fazem ao menos uma doação ou atividade voluntária a cada ano e 63% a cada mês. O estudo foi feito pela CAF – Charities Aid Foundation. O Instituto Idis – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social tem um site, o descubrasuacausa.net.br, em que, a partir de um jogo, os interessados em doar podem encontrar organizações bem avaliadas.
Há quem acredite que a medida provisória que criou as regras para o funcionamento dos fundos patrimoniais no Brasil possa aumentar as doações por parte dos ricos. Esses fundos são chamados endowments, e sua finalidade é a busca da sustentabilidade financeira a longo prazo. Funciona para organizações de interesse público em setores variados, como educação, saúde, cultura e direitos humanos.
Não se trata de dar dinheiro para alguém ou para uma organização. É uma aplicação no mercado financeiro e destinação dos rendimentos ao sustento das entidades. A seriedade e a governança podem atrair até milionários estrangeiros, o que seria um incentivo para os brasileiros que enriqueceram, mas que só cuidam de aumentar ainda mais os seus rendimentos.
Tanta coisa boa precisando de apoio. Tanta gente passando fome. Tanta criança sem escola. Tanto doente sem tratamento. Tanto parque abandonado. Tantos córregos poluídos. Tanto deserto, físico e ético, a necessitar de recursos.
Será que o aceno com a possibilidade de desconto tributário, incentivo fiscal, fará o rico brasileiro se conscientizar de que dinheiro não se leva no caixão, último espaço que vai abrigar esta miséria corporal tão frágil e efêmera, mas a única de que dispomos nesta aventura terrena?
Dinheiro pode servir para reduzir a infelicidade de muitas pessoas. Enquanto que a sua concentração, em regra, serve apenas para evidenciar o quão venenoso é o patrimônio, principalmente após a morte de quem o deixou. Separa irmãos, semeia inimizades, causa ressentimentos. E vai acabar em mãos de quem não proveu o falecido de tais recursos.
Muito melhor é multiplicar o bem-estar de muitos, do que fazer a sua família se digladiar após a sua morte, dilapidando aquilo por que você tanto lutou e sofreu em sua curta existência.

(Colaboração de José Renato Nalini, Reitor da Uniregistral, docente da Pós-Graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020.)

 

Publicado na edição nº 10468, de 4 a 6 de março de 2020.