O Cinema Paradiso que vive em mim

Memórias de uma infância em Bebedouro João Osvaldo Schiavon Matta

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(Colaboração de João Osvaldo S. Matta, Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, com doutorado sanduíche na University College London (UCL), sob orientação do Prof. Daniel Miller. Mestre em Comunicação e Práticas de Consumo pela ESPM e graduado em Engenharia Eletrônica pela USP. Possui MBA em Gestão de Negócios pelo ITA/ESPM e pós-graduações em Comunicação Mercadológica e Tecnologia Internet. Formado em Psicanálise pelo Instituto Sedes Sapientiae e atualmente graduando em Pedagogia. Professor em regime integral na ESPM São Paulo e Supervisor do curso de Cinema e Audiovisual, integrando também seu NDE. Foi coordenador do curso de Publicidade e Propaganda da ESPM).https://www.espm.br/professores/joao-osvaldo-schiavon-matta/

Há filmes que assistimos e há filmes que passam a fazer parte de nós. Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore, pertence, para mim, a essa segunda categoria. Não apenas pela beleza de sua narrativa, mas porque, ao contar a história de um menino fascinado pelo cinema, parece contar um pouco da história de todos nós.

A história de uma infância povoada por descobertas, afetos e experiências que, mesmo sem percebermos, vão nos constituindo. Afinal, a experiência não é simplesmente aquilo que nos acontece, mas aquilo que se passa em nós quando alguma coisa nos acontece.

E, quando penso assim, volto inevitavelmente a Bebedouro, cidade onde nasci e vivi até meus 16 anos. Uma cidade que permanece em mim de muitas maneiras, mas que guarda um lugar especialmente luminoso nas minhas lembranças: suas salas de cinema.

Tínhamos duas: o Cine São João e o Cine Rio Branco. Dois espaços distintos, cada qual com suas particularidades, que ajudaram a construir quem sou.

O Cine São João era mais simples, com assentos de madeira e uma programação de faroestes e filmes populares. Lembro-me de uma sessão de Godzilla, quando saímos da escola Paraíso Cavalcanti em fila indiana, caminhamos até o cinema, assistimos ao filme e retornamos. Que aventura! Para um adulto, talvez apenas um passeio escolar. Para nós, uma experiência extraordinária. A cidade se transformava em cenário de uma aventura da qual éramos protagonistas.

O Cine Rio Branco, por sua vez, parecia pertencer a outro universo. Instalado em uma esquina, tinha poltronas acolchoadas e dois espaços de acomodação: a parte de baixo e a parte de cima, cujo ingresso custava o dobro. Como em Cinema Paradiso, até naquele espaço dedicado à imaginação as diferenças sociais encontravam sua maneira de se manifestar.

Foi ali que assisti a inúmeros filmes. E deixei de assistir a alguns. Vivíamos os tempos da ditadura militar, com suas censuras e proibições. Os Embalos de Sábado à Noite, com John Travolta, era proibido para menores de 16 anos; O Exorcista, para menores de 18.

Mas descobrimos uma maneira curiosa de participar das sessões. A porta de saída dava diretamente para a rua. Sentados junto àquela porta de madeira, assistíamos aos filmes sem vê-los. Ouvíamos músicas, diálogos, gritos e ruídos, imaginando as cenas que a censura nos impedia de conhecer. Hoje penso na beleza involuntária daquela experiência: impedidos de ver, inventávamos imagens. A imaginação atravessava a porta que nos separava da tela.

Havia também os filmes de luta. Saíamos empolgados, reproduzindo pelas ruas os golpes que acabáramos de ver, antes de tomar um sorvete de limão na sorveteria do Luís. Pequenas felicidades que, sem sabermos, se tornariam grandes lembranças.

É impossível não reconhecer nessas experiências algo do universo de Tornatore. Em Cinema Paradiso, o cinema é mais do que uma sala de projeção. É um lugar de encontros, descobertas e pertencimento, onde uma comunidade compartilha sonhos e aprende a narrar a própria existência.

Mas há uma diferença entre a história de Totò e a minha. No filme, a partida representa uma espécie de fuga necessária, a busca por um futuro que parece existir em outro lugar. Na minha história, prefiro pensar não em fuga, mas em encontro. Um encontro com alguém que eu ainda não sabia que era, mas que já começava a nascer naquele menino que caminhava pelas ruas de Bebedouro.

Talvez por isso Cinema Paradiso me emocione tanto. Porque nos lembra que passamos parte da vida procurando, em outros lugares, algo que muitas vezes já existe dentro de nós.

Não penso no passado como um lugar para onde gostaria de voltar. A memória, afinal, não reproduz fielmente os acontecimentos. Ela os reinventa, ilumina alguns detalhes, silencia outros e lhes atribui sentidos. Talvez seja uma espécie de cinema interior, onde o vivido e o imaginado se encontram.

Minha nostalgia não é, portanto, a tristeza por um tempo que não volta, mas a alegria de reconhecer o quanto daquele tempo permanece em mim.

Bebedouro não foi apenas o cenário da minha infância. Foi parte essencial da pessoa que me tornei. E, quando revejo Cinema Paradiso, não reencontro apenas Totò. Reencontro também aquele menino que, entre o Cine São João, o Cine Rio Branco e as ruas da cidade, começava a descobrir o mundo e a si mesmo.

Não para voltar a ser quem fui, mas para compreender, com carinho e gratidão, um pouco mais de quem sou.

Porque existem lugares dos quais partimos, mas que nunca partem de nós.

(Colaboração de João Osvaldo Schiavon Matta, Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, com doutorado sanduíche na University College London (UCL). Mestre em Comunicação e Práticas de Consumo pela ESPM e graduado em Engenharia Eletrônica pela USP. Professor em regime integral na ESPM São Paulo).

Publicado na edição 11.043, sábado a terça-feira, 24 a 27 de outubro de 2026 – Ano 102