O diagnóstico de ontem ainda faz sentido hoje?

Luiz Assunção

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Dr. Luiz Antônio da Assunção, farmacêutico clínico, CRF 23.110 SP, Pós-graduado em acompanhamento farmacoterapêutico; e em gastroenterologia funcional e nutrigenômica. Foto: Divulgação

Vivemos em uma época em que a ciência evolui rapidamente. Novos exames surgem, o conhecimento sobre as doenças se amplia e as estratégias terapêuticas são constantemente atualizadas. No entanto, existe uma prática que muitas vezes passa despercebida: a necessidade de revisar diagnósticos estabelecidos há muitos anos.

É comum encontrar pessoas que carregam diagnósticos feitos há 5, 10 ou até 20 anos como verdades absolutas. Junto com esses diagnósticos, permanecem prescrições antigas, tratamentos que nunca foram reavaliados e a crença de que aquilo que foi definido no passado continuará sendo válido para sempre.

Mas será que continua?

Um diagnóstico representa a melhor interpretação clínica possível naquele momento da vida do paciente. Ele é construído a partir da história clínica, dos sintomas apresentados, dos exames disponíveis e do conhecimento científico existente na época. Entretanto, o paciente muda. O corpo muda. Os hábitos mudam. E a própria medicina evolui.

Isso não significa que o diagnóstico anterior estivesse errado. Significa apenas que ele pode precisar ser revisto à luz da realidade atual.

No contexto do envelhecimento, essa reflexão torna-se ainda mais importante. À medida que os anos passam, muitos idosos acumulam diagnósticos e, consequentemente, acumulam medicamentos. Nem sempre há um momento destinado a questionar se todas aquelas condições ainda estão presentes da mesma forma ou se todos os tratamentos continuam oferecendo mais benefícios que riscos.

A revisão diagnóstica é uma ferramenta de cuidado. Ela permite identificar diagnósticos que precisam ser atualizados, confirmar condições que permanecem ativas e até mesmo reconhecer situações em que determinados tratamentos já não são mais necessários.

Esse processo pode contribuir para a redução da polifarmácia, diminuir o risco de interações medicamentosas, evitar efeitos adversos e melhorar significativamente a qualidade de vida do paciente. Talvez uma das perguntas mais importantes que possamos fazer seja: “Se este paciente fosse avaliado hoje pela primeira vez, receberia exatamente os mesmos diagnósticos e utilizaria os mesmos medicamentos?”

Nem sempre a resposta será positiva. E isso não representa um erro do passado. Representa maturidade clínica. Cuidar não é apenas acrescentar novas medicações ou solicitar novos exames. Cuidar também é ter a humildade de reavaliar, de ouvir novamente, de observar o paciente sob nova perspectiva e adaptar as condutas às mudanças que a vida impõe. O envelhecimento saudável exige cuidado dinâmico, individualizado e centrado na pessoa. O objetivo não deve ser tratar diagnósticos antigos de forma automática, mas compreender quem é o paciente que está diante de nós, hoje.

Rever diagnósticos não é apagar a história. É garantir que ela continue sendo escrita com responsabilidade, ciência e humanidade.

Porque, no fim das contas, o melhor cuidado não é aquele que repete condutas sem questionamento. É aquele que acompanha a evolução da vida e reconhece que, assim como as pessoas mudam, o cuidado também precisa mudar.

(Colaboração de Luiz Assunção, Farmacêutico Clínico especialista em Longevidade e Uso Racional de Medicamentos).

Publicado na edição 11.015, sábado a terça-feira, 27 a 30 de junho de 2026 – Ano 102