O guerreiro-anão

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A corrida espacial para Marte iniciou-se bem antes do homem fincar o pé na vizinha e empoeirada Lua. Na década de 1960 várias missões soviéticas e americanas concorreram tenazmente para ver quem chegaria à órbita de Marte primeiro. Em fins do ano de 1960 a União Soviética já havia lançado duas naves espaciais – Marsnik 1 e Marsnik 2 – sem sucesso, no entanto. Em 1962 a União Soviética tentou novamente, agora com a Sputnik 23 e Sputnik 24, novamente sem sucesso.

Em 1964 os Estados Unidos entraram na corrida ao planeta vermelho enviando as Mariner 3 e 4. A três falhou, mas a quatro tornou-se a primeira nave terráquea a passar pela órbita de Marte fotografando-o por 22 vezes e acabando com o famigerado mito da existência de seres marcianos verdes que povoavam o pensamento humano desde o século XIX.

Durante o transcorrer das três décadas seguintes, tanto União Soviética quanto Estados Unidos revezaram-se nos lançamentos de missões a Marte, algumas com grande sucesso, outras nem tanto. Em 1997 finalmente os Estados Unidos conseguiram pousar uma nave na superfície de Marte contendo um jipe (rover) de exploração da superfície do planeta. A nave se chamava Mars Pathfinder e o jipe Rover Sojourner.

Marte no século XXI

A ideia de alcançar Marte, não só com naves espaciais e jipes, mas com colônias humanas de exploração do planeta nunca deixou de ser uma ambição do homem. Pelo contrário, quanto mais o tempo passa, mais aguçada fica essa ambição. Há poucas semanas uma empresa aeroespacial não governamental – a SpaceX – lançou ao espaço o carro Tesla Roadster, num misto de desafio tecnológico com grande evento de marketing, promovido por Elon Musk, o bilionário dono da empresa de carros elétricos Tesla e da própria SpaceX. A ideia é fazer com que o Roadster circule a órbita de Marte por centenas de milhões de anos e quem sabe, em um futuro longínquo, seja encontrado por uma raça alienígena.

As metas de Musk e da SpaceX certamente não param por aí. A ideia é que já em 2024 Marte receba os primeiros colonos humanos e, a partir daí, comece-se a criação de mineradoras, estações de energia e construções de ajuda e suporte à vida. Um belo desafio.

Menor do que a imaginação permite

Embora nosso vizinho vermelho esteja na pauta do dia há muito tempo, várias questões sobre ele ainda permanecem abertas. Uma delas é se ele abriga ou já abrigou vida microbiológica; outra é se ele possui água. No entanto, existe uma questão que não é tão popular, mas que não deixa de intrigar muitos cientistas. Ao contrário do senso comum, Marte, apesar de levar o nome do grande deus romano da guerra, é o segundo menor planeta do sistema solar. Para se ter ideia, sua massa não passa de 10% da massa da Terra. Isso mesmo, se colocássemos Terra e Marte em uma mesma balança, a Terra pesaria 10 vezes mais do que Marte. Daí a questão: porque Marte é tão pequeno?

Ainda não há consenso sobre a resposta, apenas teorias. Uma delas e mais recente foi formulada por brasileiros da Faculdade de Engenharia da Unesp. Os astrônomos Othon Winter e André Izidoro resolveram explicar o pequeno tamanho de Marte de uma forma simples e bem provável.

Lacuna no disco solar

Para entender a teoria dos astrônomos brasileiros, devemos retomar a origem do sistema solar, há quase 5 bilhões de anos. De acordo com Winter e Izidoro, logo após a criação do Sol, formou-se ao seu redor um disco no plano longitudinal contendo gás e poeira, cuja densidade não era regular. Existiam algumas partes do disco onde o material estelar era mais abundante e outras em que o material era mais escasso. Foi o material desse disco que deu origem a todos os planetas do sistema solar.

Winter e Izidoro fizeram várias simulações de criação do sistema tomando essa ideia (disco irregular) como premissa e verificaram, que tanto a Terra quanto Vênus conseguiram material suficiente para crescer até os atuais tamanhos, mas Marte não, ele acabou por se formar em uma região de escassez de material e ficou relativamente pequeno em relação aos seus principais vizinhos telúricos.

Além, evidentemente das implicações que o modelo tem na teoria da formação do sistema solar, Winter ressalta que vários sistemas planetários diferentes do nosso têm sido descobertos e ainda sem explicação. Talvez, no futuro, essa teoria poderá servir de base de conhecimento para se esclarecer essas lacunas e ajudar a elucidar um pouco melhor a natureza do universo em que vivemos.

Colaboração de: Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação.

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