

Em 1º de março de 1930, ainda no contexto da Primeira República, ocorreu eleição para a escolha do novo presidente, em substituição a Washington Luís, que então estava à frente do Executivo federal.
Assim como em todas as eleições anteriores, novamente a maioria dos bebedourenses optou pelo candidato situacionista, Júlio Prestes, do Partido Republicano Paulista (PRP), que recebeu o total de 1.511 votos, enquanto o oposicionista Getúlio Vargas, da Aliança Liberal, alcançou apenas 335 votos.
Com a soma dos votos alcançados em todo o país, Prestes foi declarado vencedor, mas, contestando o resultado, Vargas liderou o movimento militar que resultou no golpe de Estado que possibilitou que assumisse o poder, gerando mudanças que causaram impactos imediatos no cenário político, inclusive em Bebedouro.
Entre os bebedourenses, havia forte resistência ao nome de Vargas, mas, com este no poder, as lideranças locais tradicionais perderam vez, sendo que o prefeito que cumpria mandato, Antônio Alves de Toledo, foi obrigado a deixar o cargo para que outro, alinhado ao governo federal, assumisse o controle do município, ampliando a antipatia ao novo líder nacional.
Nos meses seguintes, a insatisfação aumentou e, com a deflagração do movimento armado dos paulistas contra o governo varguista, em 9 de julho de 1932, quando teve início a denominada Revolução Constitucionalista, centenas de jovens bebedourenses se alistaram voluntariamente para integrar as tropas do estado.
Além daqueles que foram para o front, muito contribuíram na retaguarda, principalmente as mulheres, que se empenharam nas campanhas para arrecadação de fundos, como na denominada “Ouro para o Bem de São Paulo”, para a qual muitas joias foram doadas.
A guerra civil terminou cerca de três meses depois, com a derrota militar de São Paulo, mas, sob pressão, Vargas acabou por convocar uma Assembleia Constituinte, além de marcar eleições indiretas para presidente, nas quais se apresentou como candidato, sendo declarado o vencedor.
No entanto, a nova fase logo seria interrompida com a implantação da ditadura do Estado Novo em 1937, sendo que o órgão responsável pela vigilância das publicações, o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), acompanhava o que era publicado na imprensa local que, por sua vez, deixou de emitir juízos de valor ou apresentar posicionamento político.
No contexto do Estado Novo, um evento que se repetiu por diversas vezes foi a cerimônia de inauguração do retrato de Getúlio Vargas em entidades ou repartições públicas, entre as quais a Sociedade Operária Beneficente, a agência local do Banco do Brasil, a Coletoria Federal e a Prefeitura Municipal. Em todas elas, o anúncio foi feito pela imprensa e o ato era aberto ao público, contando sempre com a presença das autoridades e a realização de discursos, sempre com loas ao mandatário máximo da nação.
Por outro lado, neste mesmo período, a implementação das novas leis trabalhistas, do salário-mínimo e dos direitos sociais resultou na aproximação da imagem de Vargas junto aos trabalhadores bebedourenses, incluindo ferroviários, comerciários e operários, os quais aderiram à idealização de sua imagem como o “Pai dos Pobres”.
Desta forma, mesmo após a deposição da presidência em 1945 e o intervalo de cinco anos correspondentes ao governo Dutra, os bebedourenses não se esqueceram de Vargas quando este se candidatou pelo PTB nas eleições de 1950, dando a ele a maioria dos votos. Entre os três candidatos à Presidência da República, Vargas obteve 3.205 votos dos bebedourenses, enquanto o Brigadeiro Eduardo Gomes alcançou 1.484 e Cristiano Machado, apenas 212 votos.
Merece menção também o fato de Getúlio Vargas ser o único presidente da República do Brasil, além dos quatro primeiros (Deodoro, Floriano, Campos Sales e Prudente de Morais), a emprestar o seu nome a uma das ruas da cidade, localizada na Vila Major Cícero de Carvalho e nomeada em meados da década de 1950, assim como as demais daquele bairro.
Diante do exposto, observa-se que a relação entre os bebedourenses e Getúlio se transformou no decorrer do tempo, pois, se inicialmente ficou marcada por posições de combate à sua permanência no poder, concluiu-se com a aceitação ou admiração, acolhendo a imagem de mito que foi construída entre os brasileiros.
(Colaboração de José Pedro Toniosso, professor e historiador bebedourense,
www.bebedourohistoriaememoria.com.br).
Publicado na edição 11.029, sábado a terça-feira, 29 de agosto a1º de setembro de 2026 – Ano 102




