O jovem pós Covid-19

José Renato Nalini

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Considerável parcela da juventude não acredita naquilo que fazemos questão de pregar. Como pensar em política, se ao seu mister se entregam tantos inescrupulosos? Alguém de bom senso acreditaria que as dezenas de milhares de mortos servem para alguns se locupletarem? Não interromper a corrupção nem durante a pandemia é o cúmulo da crueldade.
Como acreditar piamente na escola, se tantos diplomados engrossam as filas dos desempregados? Jovens que gostariam de alçar voo, são constrangidos a permanecer na casa paterna, pois desprovidos de condições de se sustentar dignamente.
São pequenos sintomas de uma transição bem séria, que só será devidamente analisada depois de alguns séculos. Quem vivia na chamada Idade Média não tinha ideia de que ela viria a ser assim chamada. Por isso é que, à falta de expressão adequada, costumamos designar esta era de pós-modernidade.
O mundo deixou, talvez definitivamente, a modernidade. Época em que prevalecia o individualismo, o racionalismo e o progresso como ideia central. Hoje, o gregarismo é nítido nas gangues, nas “tchurmas”, nas tribos que caminham juntas, pensam a mesma coisa, usam a mesma linguagem e são igualmente dependentes dos seus mobiles.
A razão não foi suficiente para construir o mundo melhor prometido pelos otimistas. Por isso, vale hoje a emoção. As sensações, a intuição, o “aché”. E o futuro não é uma preocupação, para quem vive o presente e se satisfaz com o que ele pode propiciar.
São tantas as ameaças de extinção da vida sobre a Terra, que a juventude parece inebriada pela curtição. Já que as mudanças climáticas continuam, que não cumprimos Quioto nem o Tratado de Paris, então vamos aproveitar o tempo que nos resta. Se a representação democrática não satisfaz minhas expectativas, se o eleito só pensa em se manter no cargo ou em reeleição, vamos ser contra a política partidária.
É o que o sociólogo francês Michel Maffesoli chama de “religiosidade juvenil”. O jovem não se reconhece mais no materialismo econômico e se curva ao apelo do qualitativo da existência. O trabalho não é mais um valor essencial. Mesmo porque, a epopeia dos caçadores de emprego cansou. Ninguém consegue a colocação dos seus sonhos. São muito poucos os aproveitados pela engrenagem do capitalismo selvagem.
Alguns se comovem com o compartilhamento, a solidariedade, a generosidade, não se apegam a bens materiais. Isso se verifica na tendência a desprezar o carro, a se satisfazer com espaços menores, a tornar a vida mais divertida e mais simples.
Para muitos, é natural hoje o convívio e o uso comum de coisas que, há algum tempo, deviam ser exclusivas e eram o índice do êxito. Há coworking, coliving, codriving, tudo o que se possa imaginar que começa com o “co”, derivado do “cum” latino. Resume-se a um nicho da mocidade, exatamente o mais esclarecido e que teve condições de estudar em boas escolas, ou que provém de lares onde a leitura não é um absurdo, mas uma rotina.
O terrível, para o Brasil, é que a maioria da população está excluída de tudo aquilo que o consumismo alardeia como essencial para a felicidade plena. São muitos milhões os desprovidos de educação, saúde, moradia, emprego, saneamento básico. Estes jovens precisam ser cooptados para uma participação no banquete propiciado pela Quarta Revolução Industrial que, se continuar assim, vai tornar irreversível a exclusão.
Agora que só sobrarão os jovens, porque os velhos estão condenados, a mocidade precisa despertar para as necessidades do Brasil e empreender para que novas ocupações supram a falência do sistema. Vê-se na pandemia que a saúde, assim como a educação, pouco mereceu de atenção do governo. Haverá necessidade de mais profissionais nessa área, assim como valorizar a carreira do professor, notadamente o de educação física. Pois quem souber prevenir e se precaver, levando vida saudável, estará menos propenso a ser vitimado pelas novas pandemias que, inevitavelmente, assolarão a humanidade.
O mundo precisa de jardineiros, de cultivadores do verde que a ignorância egoísta sacrifica, de cuidadores, de leitores, de contadores de estória e de cantores, de malabaristas, de artistas, de sonhadores. E os jovens mostrarão ao mundo que a renda mínima, que pouco foi levada a sério, precisará ser a resposta para a miséria que só crescerá, mesmo depois do auge da tragédia da peste.

(Colaboração de José Renato Nalini, Reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020).

 

Publicado na edição nº 10495, de 24 a 26 de junho de 2020.