O que nos mantém saudáveis e satisfeitos ao longo da vida?

Pedro Medeiros

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Articulista – Pedro Medeiros, bebedourense, psicólogo clínico e novo articulista da Gazeta, passa a contribuir com reflexões sobre saúde mental, comportamento e existência a partir da psicologia fenomenológico-existencial.Foto: Arquivo pessoal.

A pergunta do título foi o questionamento de uma pesquisa iniciada em 1938 pela Universidade de Harvard: o Estudo do Desenvolvimento Adulto, a investigação mais longa já realizada sobre a vida humana. Por mais de sete décadas, pesquisadores acompanharam 724 homens divididos em dois grupos opostos: de um lado, estudantes de Harvard; do outro, jovens da periferia de Boston. Ao longo dos anos, esses homens tornaram-se operários, advogados, pedreiros, engenheiros, médicos e um deles tornou-se presidente dos Estados Unidos.

Para mapear o que realmente sustentava a saúde física e mental dessas pessoas, a equipe não se limitou a questionários. A cada dois anos, os pesquisadores analisavam prontuários médicos, coletavam sangue, escaneavam seus cérebros e gravavam entrevistas com suas esposas e filhos. O resultado desse acervo não apontou para o impacto da dieta, do colesterol ou do sucesso financeiro: o fator decisivo para uma vida saudável foi a satisfação nos relacionamentos. O estudo provou que a solidão é tóxica ao causar declínio cognitivo precoce e piora a saúde, enquanto conexões sociais de qualidade protegem a mente e atenuam inclusive a percepção da dor física na velhice.

Somado a isso, o diretor da pesquisa, Robert Waldinger, destaca enquete recente com a Geração Y, na qual mais de 80% dos jovens responderam que seu maior objetivo de vida era ficar rico. Diante desse descompasso, pergunto: em uma era pautada pela performance, sobrecarga de trabalho, consumo desenfreado e substituição do contato presencial por telas, estamos satisfeitos? Como andam nossas relações? Quanto tempo investimos para cultivar amizades? Como demonstramos aos nossos familiares que eles são importantes?

No ano passado, acompanhei na clínica um jovem de 30 anos que chegou ao consultório com burnout. Nas sessões, relatou que a única forma que conhecia para demonstrar afeto era sendo provedor: se a família, a namorada ou os amigos precisavam de algo, ele enviava dinheiro. Acreditava ser essa a única maneira de ser considerada uma “boa pessoa”. O esgotamento pelo trabalho, fruto da busca obsessiva por metas, o forçou a uma pausa.

A partir desse afastamento obrigatório, ele pôde reavaliar seus vínculos. Chegou à própria conclusão de que não queria mais ser visto apenas como suporte financeiro ou utilitário. Hoje, quer ser o irmão que cuida da sobrinha por 30 minutos para que a irmã tome um banho tranquilo; o amigo que passa a tarde carregando caixas em uma mudança; o namorado que senta para estudar um assunto que irá cair na prova de sua companheira.

Trata-se de uma transição na forma de estar no mundo: não mais pautada no envio de um Pix, mas na escrita de momentos registrados pela via do afeto simbólico. O dinheiro tem sua importância, mas é a presença em forma de quantidade, ou seja, no dia a dia, nas situações corriqueiras que se preserva a vida. Como nos ensina Harvard, uma vida boa não se constrói no que acumulamos, mas nos laços verdadeiros que sustentamos.

(Colaboração de Pedro Henrique Fernandes Medeiros, Psicólogo Clínico pela PUC-Campinas, mestrando em Psicologia Social na Universidade Estadual do RJ; cursa especialização lato sensu em Psicologia Clínica, no Instituto de Fenomenologia-Existencial do RJ, especialista em Intervenção na Autolesão, Prevenção e Pósvenção do Suicídio pelo Instituto Vita Alere).

Publicado na edição 11.031, sábado a sexta-feira, 5 a11 de setembro de 2026 – Ano 102