O que o povo quer?

José Renato Nalini

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A Democracia é o pior governo que existe no mundo. À exceção de todos os demais. Isso já foi repetido e decantado em inúmeros discursos. Ocorre que sua concepção idealizada ainda reside na consciência das pessoas que acreditam na conjugação de esforços em busca do bem comum.
A forma “pura” de Democracia nunca existiu. Costuma-se mencionar a Grécia Antiga, mais exatamente no século V antes de Cristo, o “século de ouro”, a era de Péricles. A fantasia descreve a desejável participação de todos os cidadãos, reunidos na ágora, a praça grega, a decidir os destinos da pólis, a cidade-Estado helênica.
Mas quem eram esses cidadãos? Não alcançavam mais do que cinco mil pessoas. Eram apenas os proprietários, os possuidores de bens, com exclusão dos pobres, dos estrangeiros, dos escravos e das mulheres.
Não é demasia concluir que a imensa maioria da população estava excluída do processo democrático.
Também se invoca a prática, em alguns cantões suíços, de reunião de todos os eleitores na praça, num domingo da primavera, para decidir sobre as questões primordiais da convivência. Mas isso não é o que se desejaria como Democracia, já conceituado como o governo do povo, pelo povo e para o povo. Os suíços já não realizam esse encontro com frequência. Confiam no governo eleito, que os representa. Quando se convoca a reunião, é com finalidades simbólicas e quase folclóricas.
De forma que Democracia, como governo da maioria, existe sob sua configuração mais imperfeita. As maiorias instáveis, episódicas, transitórias e fluidas. Veja-se o caso do Brasil.
Apregoa-se um período fértil de vivência democrática, pois desde 5 de outubro de 1988, vige a “Constituição Cidadã”, restauradora da ordem alicerçada no Estado de Direito. Sobreveio à fase do autoritarismo, que perdurou por 21 anos. Para os otimistas, já temos mais Democracia – três décadas – do que ditadura – duas décadas e um ano.
Todavia, qual o apreço que os brasileiros devotam à sua Democracia? Ela realmente atende às expectativas da maioria? O que ocorreu nestes trinta anos? Aumentou a qualidade de vida do brasileiro? Quais os êxitos dos quais podemos nos vangloriar?
A Democracia no Brasil não estimulou a formação de uma sociedade apta à participação. A transição da Democracia Representativa para a Democracia Participativa é uma promessa descumprida.
O que se verifica hoje é uma profunda desilusão com a representação. Ninguém se sente representado. Ninguém confia na política partidária. Tanto que o prenúncio de vitória nas próximas eleições indica o ausente, o voto branco e o voto nulo como os grandes vencedores.
Retrocedemos em inúmeros aspectos do convívio. Deixamos os valores declinarem e agonizarem. Respeito, consideração, compreensão, solidariedade, fraternidade, justiça social, até mesmo polidez e boa educação de berço regrediram a níveis intoleráveis.
A educação, único instrumento de transformação da sociedade, está presente no discurso, é considerada a prioridade absoluta desta República, mas não merece atenção do governante. Este não consegue dialogar com os profissionais da educação. O confronto é permanente. Um não confia no outro.
A família negligenciou o treino social da prole, as mães, principalmente, não se esmeraram como aquelas de tempos idos, que insistiam na transmissão do “currículo oculto”. Coisas simples como as regras mais comezinhas da convivência, as palavras “mágicas” hoje esquecidas, como “por favor”, “muito obrigado”, “com licença”, “perdão”, até mesmo os triviais cumprimentos de bom dia, boa tarde, até logo, não merecem o zelo doméstico e caíram em desuso.
O vezo comum é acusar o governo, como se este fosse uma entidade etérea, que surge do nada, e não o resultado da escolha cidadã. O governo reflete a sociedade. Se esta não quer o melhor, as eleições mostram o que têm mostrado.
Depende de cada um de nós resgatar o Brasil de males que foram se acumulando e nos deixaram nesta situação de indigência moral. Há uma chance. Ela se chama “voto consciente”. Façamos bom uso dele.

(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Uninove, autor de “Ética Geral e Profissional” e Presidente da Academia Paulista de Letras).

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Leia mais na edição 10368, 26 e 27 de fevereiro de 2019.