O século XX nos ensinou a prescrever. O século XXI está nos ensinando a desprescrever

Luiz Assunção

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Dr. Luiz Antônio da Assunção, farmacêutico clínico, CRF 23.110 SP, Pós-graduado em acompanhamento farmacoterapêutico; e em gastroenterologia funcional e nutrigenômica. Foto: Divulgação

Durante grande parte do século XX, a capacidade de prescrever medicamentos representou uma das maiores conquistas da saúde moderna. Antibióticos salvaram milhões de vidas, anti-hipertensivos reduziram o risco de acidentes vasculares cerebrais, medicamentos para diabetes permitiram melhor controle da doença e inúmeros tratamentos contribuíram para o aumento da expectativa de vida da população.

Prescrever era sinônimo de progresso. E, de fato, foi.

Graças aos avanços científicos e ao acesso cada vez maior aos tratamentos, vivemos mais do que qualquer outra geração da história. Entretanto, essa conquista trouxe consigo novo desafio: o acúmulo de medicamentos ao longo da vida.

Hoje, convivemos com uma população cada vez mais envelhecida e, consequentemente, mais exposta à polifarmácia — situação geralmente caracterizada pelo uso de cinco ou mais medicamentos de forma concomitante. Hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado, osteoporose, dores crônicas, insônia, ansiedade e depressão frequentemente se somam, transformando a rotina de muitos idosos na sequência diária de comprimidos.

É importante destacar que a polifarmácia nem sempre é inadequada. Existem pacientes complexos que realmente necessitam de múltiplos tratamentos para manter a estabilidade clínica e a qualidade de vida. O problema surge quando medicamentos permanecem em uso sem indicação atual, quando os riscos passam a superar os benefícios ou quando novos fármacos são adicionados apenas para tratar efeitos adversos provocados por outros medicamentos.

Nesse contexto, ganha destaque conceito relativamente recente, mas cada vez mais relevante: a desprescrição.

Desprescrever é o processo planejado e supervisionado de redução da dose ou suspensão de medicamentos que já não oferecem benefícios significativos ou que podem representar riscos desnecessários. Trata-se de uma revisão criteriosa da farmacoterapia, baseada em evidências científicas, nos objetivos terapêuticos e, principalmente, nas necessidades e preferências da pessoa idosa.

É fundamental compreender que desprescrever não significa abandonar tratamentos, negar os avanços da medicina ou incentivar a interrupção indiscriminada de medicamentos. Pelo contrário. Trata-se do cuidado ainda mais atento e individualizado.

O envelhecimento modifica a forma como o organismo processa os medicamentos. Alterações na função renal e hepática, mudanças na composição corporal e maior sensibilidade a determinados fármacos aumentam a vulnerabilidade a reações adversas. Quedas, tonturas, sonolência excessiva, confusão mental, constipação, interações medicamentosas e hospitalizações podem estar relacionadas ao uso inadequado ou desnecessário de medicamentos.

Por isso, algumas perguntas precisam fazer parte da prática clínica e das conversas entre profissionais, pacientes e familiares: Este medicamento ainda é necessário? Ele continua trazendo benefícios reais para esta pessoa? Os riscos permanecem menores do que as vantagens? Os objetivos do tratamento continuam os mesmos?

Essas reflexões representam uma mudança de paradigma. Durante muito tempo, fomos treinados para identificar o que faltava e acrescentar novos tratamentos. Hoje, precisamos desenvolver também a capacidade de reconhecer aquilo que pode ser retirado com segurança.

Nesse processo, o trabalho multiprofissional torna-se indispensável. Médicos, farmacêuticos, enfermeiros e demais profissionais da saúde têm a responsabilidade compartilhada de revisar periodicamente os tratamentos, avaliando riscos, benefícios e prioridades. O farmacêutico clínico, em especial, pode contribuir de maneira significativa ao identificar medicamentos potencialmente inapropriados, avaliar interações, monitorar resultados terapêuticos e apoiar decisões mais seguras.

A desprescrição nos lembra que o cuidado não deve ser automático. Cada medicamento deve ter propósito claro, revisitado ao longo do tempo e alinhado aos objetivos de vida de quem o utiliza.

Talvez a grande lição deste século seja compreender que o sucesso terapêutico não está no número de medicamentos prescritos, mas na capacidade de utilizar apenas aqueles que realmente fazem diferença.

O século XX nos ensinou a prescrever. O século XXI está nos ensinando a desprescrever. E talvez uma das maiores demonstrações de sabedoria clínica seja entender que, na longevidade, cuidar não significa apenas acrescentar. Muitas vezes, cuidar é também saber o que pode ser retirado. Porque viver mais é uma conquista. Mas viver melhor deve continuar sendo o nosso maior objetivo.

(Colaboração de Luiz Assunção, Farmacêutico Clínico, especialista em Longevidade e Uso Racional de Medicamentos).

Publicado na edição 11.016, quarta, quinta e sexta-feira, 1º, 2 e 3 de julho de 2026 – Ano 102