Obra fechada prejudica final de ‘Um Lugar ao Sol’

Marcos Pitta

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Destaque – Após 20 anos fora das novelas, Andrea Beltrão teve destaque em ‘Um Lugar ao Sol’, mas seu final poderia ter sido outro, se a novela fosse uma obra aberta. (Reprodução/TV Globo)

Mesmo com vários desfechos diferentes gravados para que o verdadeiro final não vazasse à imprensa, quando Lícia Manzo escreveu ‘Um Lugar ao Sol’, ainda sobre os cenários de incertezas da pandemia, certamente já sabia qual final gostaria de dar a cada um de seus personagens. Fato é que novela é uma obra aberta, o gênero pede isto e não adianta remar contra a maré.

Claro que ‘Um Lugar Ao Sol’ é salva pela pandemia, pois é esta a explicação para a novela apresentar tantos finais incoerentes e sem explicação. Afinal, conforme foi ganhando forma e tempo no ar, o público fiel à obra foi se apegando mais e menos aos personagens, principalmente os do núcleo central. Como a trama estreou 100% gravada, nada foi possível fazer para modificar alguns finais.

É certo que cada autor gosta de ser o mais fiel possível às suas ideias, mas em uma obra aberta, muito se altera de acordo com a opinião popular. O casal sem química, a vilã que se arrepende, a mocinha que desagrada, algum outro personagem ganha força e rouba a cena, tudo isto é consertado com a novela no ar, ainda em processo de gravação. ‘Um Lugar ao Sol’ não desfrutou disto e terminou como uma das novelas com mais finais injustos da história.

Se tivesse tempo de trabalhar mais os personagens, Manzo teria construído melhor a relação entre Christian e Lara, afinal, não foi possível, em momento algum, torcer para um final feliz entre eles. Para falar a verdade, Cauã Reymond e Andréa Horta tiraram leite de pedra para construir qualquer possibilidade de química entre eles.

Andréa Beltrão, por sua vez, destacou-se, foi ponto fora da curva a novela inteira e, se a obra fosse aberta, com certeza ganharia mais destaque, mais conflitos e teria final diferente. O mesmo vale para Túlio, papel de Daniel Dantas que foi o antagonista da história e teve seu final trágico, sem exibição da cena e bem antes do fim da novela.

Mesmo com todas as críticas em torno do final, vale sempre ressaltar que ‘Um Lugar ao Sol’ se salva pela essência, com texto e direção afinados e interligados. Lícia Manzo merece outra oportunidade no horário nobre, assim como Maurício Farias precisa dirigir outra trama urgente.

Muita expectativa…

Na segunda (28), ‘Pantanal’ estreia na grade da Globo e as expectativas em torno da nova novela são altíssimas. Primeiro, pelo fato de a novela ser um clássico e trazer memória afetiva no telespectador. Segundo, pelo fracasso de audiência de ‘Um Lugar ao Sol’, a tendência é que a trama de Benedito Ruy Barbosa, com adaptação de Bruno Luperi, reerga os números da faixa. Porém, sempre é bom lembrar, muita expectativa também gera muita frustração. A divulgação está pesada, o elenco é bom e a trama é convidativa. Precisamos analisar como ficará a adaptação dos temas tratados em 1990, trinta e dois anos depois. Que venha mais uma grande produção audiovisual brasileira.

Publicado na edição 10.655, de sábado a terça-feira, de 26 a 29 de março de 2022.