Os impactos climáticos no sistema alimentar global

Maurício Godinho e Fernando Gambôa

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O dia da Sobrecarga da Terra, que ocorreu no ano passado em 29 de julho, levantou um alerta para o fato de que o planeta não tem mais os recursos naturais necessários para sustentar o crescimento infinito, já que o consumo da humanidade excedeu a capacidade natural de sustentar a vida. Reconhecer essa finitude e responder a isto pode moldar o sistema alimentar global nos próximos anos. Isso cria oportunidades significativas para empresas que querem que as operações e os modelos de negócios evoluam para produzir alimentos de uma forma que equilibre esta demanda com a natureza e com a biodiversidade no sentido mais amplo.

É importante compreender que deixar de cuidar coletivamente da natureza torna a sociedade incapaz de produzir os alimentos que precisa para sobreviver, principalmente porque desenvolvemos sistemas alimentares globais complexos para atender a uma população em rápido crescimento e a um custo acessível para todos. Para a maioria da população mundial, embora não para todas as pessoas, esta equação parece ter sido resolvida até então.

Entretanto, a pandemia da Covid-19 e as interrupções de fornecimento associadas (potencializadas no começo deste ano pela guerra na Ucrânia) destacaram as fragilidades do sistema alimentar, enquanto o aumento significativo nos eventos climáticos extremos desafiou a resiliência dos produtores e impulsionou um forte foco na garantia de renda no curto prazo. A colaboração em toda a cadeia produtiva — desde agricultores, produtores e pescadores até processadores, varejistas e consumidores — é necessária para desenvolver uma ampla perspectiva de um modelo moderno que possa alimentar a população global, mantendo o equilíbrio com a natureza e oferecendo uma combinação entre os alimentos cultivados tradicionalmente e os alimentos do futuro. Dessa forma, seriam utilizadas técnicas tais como cultura celular e fermentação que irão fornecer alimentos altamente nutritivos e, ainda sim, acessíveis.

De acordo com um estudo do Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável, a combinação de mudanças e eventos climáticos pode ter um impacto material adverso na capacidade do sistema alimentar global em cumprir o objetivo principal que é suprir a sociedade. Essa análise também destacou que concentrar esforços que possam mitigar esse impacto, focar no longo prazo, e considerar como os sistemas agrícolas interagem com a natureza, estão entre algumas das etapas mais práticas que a indústria de alimentos pode tomar para aprimorar o sistema e ajudar a garantir que as resiliências econômica e ambiental sejam aperfeiçoadas.

Portanto, deve haver uma conscientização muito maior sobre o desperdício de alimentos e como isso diminui os recursos finitos do planeta. A comida está sendo desperdiçada em algumas partes do mundo, enquanto a insegurança alimentar está aumentando em outras. A necessidade de um nivelamento global de abastecimento tornou-se ainda mais urgente recentemente, em função de um risco maior de desnutrição, ao mesmo tempo em que alguns países passam por dificuldades para colher os alimentos nos campos.

A insegurança hídrica também é um problema significativo, com mais de dois bilhões de pessoas que vivem atualmente em regiões com estresse hídrico. O sistema alimentar globalmente usa cerca de 70% da água doce e está sendo desafiado a ajudar a reduzir demandas. Há uma quantidade significativa de desenvolvimento de tecnologia em relação à gestão inteligente da água — uma área-chave de investimento neste processo.

Também são crescentes os esforços de utilização de coprodutos que podem auxiliar na descarbonização do clima, buscando formas de uso da biomassa para geração de energia e entregando outros bioprodutos para substituir aqueles tradicionalmente feitos a partir de combustíveis fósseis.

A responsabilidade com a natureza não recai sobre os ombros de nenhum segmento específico do ramo alimentício, mas sobre a indústria como um todo. É necessária uma ampla perspectiva da cadeia alimentar para ajudar a alcançar um planeta e pessoas saudáveis. E cada elo da cadeia — da fazenda à mesa — tem um papel importante a desempenhar.

Neste sistema alimentar global integrado, o poder dos consumidores está aumentando exponencialmente. Eles têm um papel fundamental e estão transformando esse processo de cadeia de valor em uma verdadeira “teia de valor” construída a partir da capacidade de influenciar as mudanças que precisam acontecer no nível das operações da fazenda até os ingredientes que escolhem para a mesa no jantar. Com o uso da tecnologia, eles podem ter acesso às informações sobre o que está acontecendo em diferentes etapas do processo produtivo. Isso permite que eles influenciem as operações éticas dos varejistas e o grau em que o valor está sendo compartilhado de forma equitativa em cada elo da cadeia.

Os problemas enfrentados pela indústria alimentícia são complexos, mas a mensagem é simples. Se a sociedade não cuidar da natureza, não poderá se manter. Devemos investir em ações que reduzam os impactos climáticos no planeta, agindo como uma comunidade global se quisermos nos alimentar no futuro.

(Colaboração de Maurício Godinho, sócio-líder do segmento de Alimentos e Bebidas da KPMG e Fernando Gambôa, sócio-líder de Consumo e Varejo da KPMG no Brasil e na América do Sul).

Publicado na edição 10.680, quarta, quinta e sexta-feira, 6, 7 e 8 de julho de 2022.