Os inocentes do século 21

José Renato Nalini

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A Cristandade tem um carinho muito grande pelos inocentes. A palavra serve para designar várias situações. Mas estou falando daqueles que foram sacrificados por Herodes, quando temia que a vinda do Messias implicasse em risco para o seu reino temporal.
Inocentes são também aqueles que não chegam a nascer, vítimas de um abortamento. Foram concebidos, se deixados no ninho materno, teriam o encontro exitoso com a aventura de viver. Mas são interrompidos, mal se inicia a jornada.
Só que agora me preocupam os inocentes que vivenciarão o resultado de nossa ignorância e de nossa inclemência em relação à natureza. Inconcebível que exista ser humano capaz de negar a evidência da mudança climática, uma das consequências de nossa incúria.
O desmatamento no Brasil cresce de maneira avassaladora. Os egoístas e imediatistas captam o recado do governo: liberou geral. Vamos derrubar tudo. Não há limites. Não há mais fiscalização, nem multa. Ao contrário: incentiva-se o exterminador do futuro.
O absurdo é tamanho, que se ressuscita um estúpido argumento baseado na soberania: a Amazônia é nossa! Podemos destruí-la!
Mentira: ela não é só nossa. Uma parte é. Mas ela também está em outros países. A própria nascente do Amazonas não está no Brasil.
O argumento de que outros países não podem defender a Amazônia é pueril. O mundo é uma rede de interligações e há muito tempo. Por que se dizia, há algumas décadas, de que o bater de asas de uma borboleta na Indonésia podia causar furacão no Brasil? Justamente porque tudo tem ligação com tudo. Não se mata impunemente a natureza.
A imbecilidade de se recusar dinheiro da Alemanha e da Noruega para ajudar a manter a floresta em pé é um termômetro de nossa desqualificação ecológica. Até o agronegócio já percebeu que o castigo chegará online: não adianta comemorar o acordo Mercado Comum Europeu e Mercosul. A Europa não vai transigir com madeira extraída ilegalmente, com soja plantada em área devastada, com álcool produzido com cana-de-açúcar que cresceu no túmulo da floresta tropical.
O pior é que as crianças vão sofrer a insanidade dos adultos que deveriam ser interditados. Crianças de todo o mundo, mas principalmente as crianças do sudeste. O regime de chuvas decorre dos “rios florestais”, as grandes massas que a Amazônia faz gerar, gratuitamente, para propiciar um clima saudável para os Estados brasileiros da região sul e leste.
Elas viverão mal e viverão menos. Não terão de quem cobrar por esse crime. Terão plena consciência de que seus ascendentes foram uma espécie miserável. Insensível, inapta, teimosa e cruel. Mas de que adiantará tudo isso?

(Colaboração de José Renato Nalini, Reitor da Uniregistral, docente da Pós-Graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020.)

 

Publicado na edição nº 10472, de 18 a 20 de março de 2020.