‘Os Outros’ é a melhor série de 2023 até agora e não perde em nada para produções americanas que ganham o mundo

Marcos Pitta

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Série do ano - ‘Os Outros’ traz como pano de fundo, as consequências da falta de diálogo na sociedade refletida em duas famílias num condomínio do Rio de Janeiro. (Foto: Divulgação/Globoplay)

Com tantos produtos audiovisuais surgindo a todo momento, principalmente na vasta gama de plataforma de streaming que existem, fica cada vez mais difícil procurar o que assistir de novidade. Indo mais além, se torna ainda mais complicado encontrar, num leque tão grande de opções, algo que realmente ofereça originalidade. Com os 12 episódios da primeira temporada disponibilizados no Globoplay, ‘Os Outros’ é uma série que precisa ser consumida e para quem busca inovação e versatilidade, o prato é cheio e com direito a repetir a dose.

Criada por Lucas Paraizo, a série gira em torno de dois casais vizinhos entrando em choque após a briga de seus filhos, com consequências absurdas. O texto de Paraizo propõe ao público, entender sobre até onde a falta de diálogo pode levar as pessoas. Como pano de fundo, a Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro e dois casais do subúrbio que se mudam para um condomínio no bairro: Wando (Milhem Cortaz) e Mila (Maeve Jinkings) e Cibele (Adriana Esteves) e Amâncio (Thomas Aquino). Com a briga dos filhos em aberto, uma disputa pela verdade é instalada no condomínio, envolvendo, inclusive, os outros moradores.

Ponto forte da trama é a direção de Luisa Lima, muito bem articulada e fazendo casamento perfeito com o texto proposto pelo autor. Lima usa de um artifício perigoso, começar cada episódio com um frame da cena final. O perigo, neste caso, se transforma em oportunidade para segurar a atenção de quem assiste pelos 40 minutos de arte que vem pela frente e o que poderia sinalizar um spoiler, tão temido por muitos fãs, se torna um recurso que dá à série outro ponto positivo no quesito originalidade.

A atuação dos atores está impecável, nenhum deles foge do tom ou destoa dos demais. A síndica Lúcia vivida por Drica Moraes está tão bem construída que, mesmo com todos os acontecimentos, fica difícil não torcer pela personagem. Maeve Jinkings como Mila e Milhem Cortaz como Wando entregam sequências alucinantes e de tirar o chapéu. Amâncio, de Thomas Aquino, também se destaca, mesmo sendo criado para ser um personagem pacificador, o que acaba provocando irritação em quem assiste. Se não tivesse ele, este ponto de equilíbrio para tanta loucura e desordem, certamente o público sentiria o peso do exagero.

Em nada fica atrás a atuação de Antonio Haddad e Paulo Mendes, os dois adolescentes responsáveis por toda a confusão. Apesar de novos, ambos se destacam bem frente aos veteranos e entregam grandes cenas, assim como Eduardo Sterblitch e seu Sérgio, personagem criado para ser o vilão da trama, se saindo muito bem, mostrando outra faceta de sua atuação ao público, até então acostumado a vê-lo em produções com viés cômico.

Com todo o casamento orquestrado, a figura central se resume a Adriana Esteves, sem dúvidas, a personagem mais forte e intensa da trama. A atriz consegue se sobressair em todas as cenas, ela engrandece qualquer sequência. O público sente absolutamente todas as emoções por Cibele, do amor ao ódio. Esteves merece muito todos os prêmios da atuação por mais esta personagem.

‘Os Outros’ fecha sua primeira temporada com uma segunda já escrita e confirmada pelo Globoplay e não perde, em absolutamente nada, para as séries americanas que conquistam o mundo. Aliás, o mundo está sem diálogo e assistir ‘Os Outros’ seria uma maneira de começar a enxergar a loucura que estamos vivendo atualmente. Afinal, não só na série, mas na vida real, o problema, para nós, sempre são os outros.

Publicado na edição 10.774, sábado a terça-feira, 22 a 25 de julho de 2023 – Ano 99