

O Brasil vive uma das maiores transformações demográficas de sua história. A população envelhece rapidamente e, com ela, cresce também o número de pessoas que convivem com doenças crônicas, limitações funcionais e o uso contínuo de múltiplos medicamentos.
Nesse contexto, iniciativas como o Programa de Atenção Domiciliar à Pessoa Idosa (PADI Brasil) representa avanço importante nas políticas públicas de saúde. Ao levar assistência até a casa das pessoas com 60 anos ou mais que apresentam restrições de mobilidade, o programa fortalece um modelo de cuidado mais humano, próximo da família e centrado nas necessidades do paciente.
Essa iniciativa merece reconhecimento. Entretanto, para que alcance todo seu potencial, é necessário refletir sobre um aspecto que ainda recebe pouca atenção: a participação do farmacêutico clínico nas equipes de atenção domiciliar.
A realidade dos idosos atendidos por esse tipo de programa é marcada pela polimedicação. Não é raro encontrar pacientes utilizando cinco, oito, dez ou até mais medicamentos diariamente. São tratamentos prescritos por diferentes especialistas, muitas vezes iniciados em momentos distintos da vida, sem avaliação periódica da necessidade, da efetividade e da segurança de cada medicamento.
É justamente nesse cenário que surgem os chamados Problemas Relacionados aos Medicamentos (PRMs), como interações medicamentosas, duplicidade terapêutica, doses inadequadas, baixa adesão ao tratamento, reações adversas e erros na utilização dos medicamentos. Essas situações podem resultar em quedas, confusão mental, perda da autonomia, internações hospitalares e redução significativa da qualidade de vida.
O acompanhamento farmacoterapêutico realizado pelo farmacêutico permite identificar e prevenir esses problemas antes que eles provoquem danos ao paciente. Mais do que orientar sobre horários e formas de administração, esse profissional avalia continuamente se cada medicamento permanece indicado, se está alcançando os resultados esperados e se seus benefícios continuam superando os riscos.
No ambiente domiciliar, essa atuação torna-se ainda mais relevante. É dentro da casa que o farmacêutico conhece a realidade do tratamento: medicamentos armazenados inadequadamente, prescrições antigas mantidas por anos, automedicação, dificuldades para organizar os horários e dúvidas que muitas vezes nunca chegam ao conhecimento da equipe de saúde.
Por isso, ampliar a participação do farmacêutico nas equipes do PADI Brasil não significa apenas incorporar mais um profissional. Significa fortalecer a segurança do paciente, qualificar o uso dos medicamentos e reduzir eventos evitáveis que frequentemente sobrecarregam o sistema de saúde.
Outro aspecto que merece atenção é a equidade. Embora o programa tenha alcance nacional, sua implementação depende da organização das redes municipais de saúde. Na prática, isso significa que alguns municípios já contam com equipes multiprofissionais mais completas, enquanto outros ainda não incorporaram o farmacêutico clínico à atenção domiciliar.
Essa desigualdade faz com que idosos com necessidades semelhantes recebam cuidados diferentes apenas em função do município onde residem. Em um sistema de saúde fundamentado nos princípios da universalidade, da integralidade e da equidade, essa é uma reflexão necessária.
O envelhecimento da população brasileira impõe novos desafios ao SUS. Entre eles, está a necessidade de reconhecer que o medicamento não é apenas insumo a ser dispensado, mas tecnologia em saúde que exige acompanhamento permanente.
Parabenizar o Governo Federal pela criação do PADI Brasil é reconhecer importante avanço. Ao mesmo tempo, é oportuno chamar a atenção dos gestores municipais para a importância de fortalecer suas equipes com a presença do farmacêutico clínico, especialmente no cuidado às pessoas idosas em uso de múltiplos medicamentos.
O cuidado domiciliar será verdadeiramente completo quando, além de levar a assistência até a casa do paciente, também garantir que cada medicamento utilizado esteja contribuindo para sua saúde — e não se transformando em mais um fator de risco.
Porque cuidar da pessoa idosa também é cuidar da sua farmacoterapia. E esse cuidado tem no farmacêutico, protagonista indispensável.
(Colaboração de Luiz Assunção, Farmacêutico Clínico, especialista em Longevidade e Uso Racional de Medicamentos).
Publicado na edição 11.017, sábado a sexta-feira, 4 a 10 de julho de 2026 – Ano 102




