Pandemia, civilidade e sobrevivência

José Mário Neves David

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Há quem diga que os brasileiros são solidários e ajudam o próximo, visando sempre o bem comum. Há, também, quem aponte que os brasileiros são egoístas e pensam apenas em si mesmos, pouco importando a harmonia social. Há, ainda, quem não pense nada sobre o tema e ignore o fato de que somos seres políticos convivendo em sociedade.
O que não se pode ignorar, contudo, é a atual situação do País frente à pandemia do Coronavírus (Covid-19), em que parcela da população clama pelo isolamento social, visando a redução da disseminação do vírus, e fração do povo defende a “vida normal”, com a livre circulação das pessoas fora, em teoria, do grupo de risco, sob o válido argumento de que a economia não pode parar e as pessoas precisam trabalhar e buscar o seu digno sustento. Mas qual o impacto desse debate em nossas vidas enquanto cidadãos brasileiros?
A experiência observada pelos países que enfrentaram a pandemia anteriormente ao Brasil indica que o isolamento social, isto é, fazer com que, voluntária ou obrigatoriamente, as pessoas fiquem em casa, reduz a disseminação do vírus e achata a curva de infectados, diminuindo a pressão sobre o sistema de saúde público e privado e mitigando os graves problemas decorrentes de um surto de um vírus altamente contagioso que pegou a todos de surpresa. Nesse ponto, ao respeitar o isolamento social, por ora, ainda voluntário no Brasil, as pessoas não apenas reduzem sua própria exposição às atividades que poderiam causar sua infecção e dão o exemplo aos demais – sua parcela de “sacrifício” frente à pandemia –, como, também, deixam de transmitir o vírus aos outros, seja na rua, seja em suas casas, caso estejam infectados, com ou sem sintomas. Verdadeiro ato de responsabilidade para com o próximo e, acima de tudo, de civilidade.
Por outro lado, o isolamento social, acompanhado do fechamento de comércios, a paralisação das atividades em indústrias e a suspensão da prestação de serviços não essenciais afeta duramente a atividade econômica no País, em especial aos mais carentes, altamente sensíveis às oscilações da economia e que, no geral, não possuem, seja por não sobrar nenhum recurso no final do mês, seja pela falta de educação financeira, nenhuma reserva de emergência para momentos como o atual. Nesse contexto, impedir que as pessoas possam trabalhar resulta em redução ou completa ausência de recursos para o sustento de parcela das pessoas. Infelizmente, no Brasil, com alto percentual de trabalhadores autônomos formais e informais, fazer o “home office” com a garantia dos recursos pingando na conta no final do mês para uma subsistência digna é um privilégio para poucos. Assim, ao restringir a circulação de pessoas e de recursos na economia, o isolamento social pune, direta ou indiretamente, a todos e, em especial, aos mais pobres.
Dessa forma, para que haja equilíbrio e harmonia sociais, sopesando a civilidade do bem-comum com a necessidade de sobrevivência dos brasileiros, é fundamental que, em momentos como o atual, existam políticas públicas rápida e estrategicamente implementadas para que seja possível pedir, ou até mesmo obrigar, às pessoas que fiquem em casa. Estímulos às empresas para que não demitam, tais como a postergação ou redução do pagamento de tributos, assim como a concessão de bolsas e auxílios financeiros em razoável valor aos mais carentes, são de fundamental importância para que todos, ricos ou pobres, tenham condições de sustentar as suas famílias dignamente e respeitar o pedido de isolamento social. Não haverá respeito e apreço com o bem-estar coletivo enquanto houver fome.
Assim, cabe a todos, governantes e cidadãos, que façam sua parte, rapidamente e dentro do possível, ao longo deste período de provações, a fim de que possamos sair desta crise ainda mais fortes e unidos, como Nação e como brasileiros.

(Colaboração de José Mário Neves David, advogado e administrador de empresas em São Paulo-SP. Contato: josemariodavid@gmail.com).

 

Publicado na edição nº 10480, de 18 a 24 de abril de 2020.