Para um lixo que não ligamos

Wagner Zaparoli

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Gradativamente a população mundial tem tomado consciência do problema da sustentabilidade da vida. Exemplo é o movimento que algumas comunidades vêm empreendendo paulatinamente para cuidar de seu lixo através do processo de reciclagem, evitando mandar para o fundo da terra (no caso de aterros sanitários) ou para a atmosfera (no caso dos incineradores), material que possa ser reaproveitado, gerando economia e sustentabilidade.

Embora essa consciência ainda seja precária em termos de solução mundial, não deixa de ter sua importância como início de um processo de mudança no comportamento humano.

E se tem gente preocupada com o lixo gerado aqui na Terra, também tem os preocupados com o lixo gerado lá no céu, sabe, aquele produzido pelo homem que flutua na órbita terrestre e que nos é invisível a olho nu. Normalmente nem damos bola para ele.

Entendendo o cenário

Os resultados dos primeiros programas espaciais surgiram notadamente depois da Segunda Guerra Mundial, a qual polarizou o mundo dividindo-o entre bloco capitalista e bloco comunista. Quem saiu na frente foi a então União Soviética, que não só conseguiu enviar o primeiro satélite ao espaço, mas também o primeiro animal, o primeiro homem e a primeira mulher. Sem perder tempo, os Estados Unidos – principal potência do bloco capitalista – investiu bilhões de dólares num programa espacial que teve o mérito, entre outros, de colocar o primeiro homem em solo lunar.

A polarização entre os dois blocos, dissimulada numa guerra de demonstração de poderes sem combate, ajudou sensivelmente a impulsionar o avanço da conquista do espaço pelo homem. E embora ainda estejamos nos primórdios dessa conquista, hoje podemos afirmar e principalmente enxergar que a Terra continua primorosamente azul tal qual a impressão de Gagarin ao vê-la pela primeira vez do espaço.

Entretanto, como diz o velho ditado “tudo tem o seu preço”, a conquista do espaço tem custado bem caro, não só para colocar as naves e seus respectivos tripulantes em órbita, mas principalmente para mantê-los lá em completa segurança.

Entre os principais problemas evidenciados pela experiência de mais de cinquenta anos dos programas espaciais destaca-se a manutenção da saúde humana, haja vista que a falta de gravidade no espaço a deteriora de forma rápida e avassaladora.

Outro problema que tem tirado o sono de muitos engenheiros e especialistas refere-se ao lixo espacial. Embora se trate de indícios, em 2004 os tripulantes da Estação Espacial Internacional fizeram referências a barulhos de prováveis impactos de materiais soltos no espaço contra as paredes da Estação.

Pelo viés da solução

Em 1996 engenheiros da NASA iniciaram estudos para tentar solucionar o problema do lixo no espaço e avaliaram a possibilidade de utilizar raios laser acionados da superfície terrestre para atingir objetos soltos, destruindo-os definitivamente. A imaginação fértil levou-os a pensar em instalar máquinas de laser na própria ISS para proteção da Estação. A idéia, linda no papel, não funcionou na realidade, pois além da energia necessária (e não existente) para acionar a máquina de laser, teria um custo muito elevado em relação ao benefício obtido.

Nesse caso, restou aos engenheiros blindarem efetivamente a ISS e implantarem um sistema de esquivo dos objetos de porte maior que venham em sua direção. Esse sistema consegue detectar objetos entre 5 e 10 cm em rota de colisão com 72 horas de antecedência, tempo suficiente para o comando da missão nos Estados Unidos e na Rússia redirecionarem a ISS, minimizando assim os riscos de choque.

Mas o problema do lixo espacial perdura e representa sérios problemas para missões tripuladas e não tripuladas na órbita terrestre. As boas ideias precisam sair da prancheta para fazerem de fato a diferença entre a sustentabilidade e a impossibilidade da contínua exploração espacial iniciada historicamente na metade do século XIX, afinal são mais de 300 milhões de objetos flutuando em volta da Terra.

A título de curiosidade, o objeto mais antigo feito pelo homem ainda no espaço é o satélite americano Vanguard-1, lançado em 1958. O maior detrito é um veículo de teste soviético Cosmos, pesando 10 toneladas. O evento que gerou maior quantidade de lixo espacial foi a explosão de parte do foguete Pegasus, em 1996, lançando cerca de 300 mil pedaços com mais de 4 mm. E por fim, os objetos mais interessantes vagando pelo espaço orbital terrestre são uma luva do astronauta Ed White (já saiu de órbita), uma chave de fenda e várias outras ferramentas perdidas no espaço por astronautas em missões externas.

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).

Publicado na edição 10.589, de 30 de junho a 2 de julho de 2021.