Com o crescimento da população mundial, especialmente nos continentes asiático e africano, o fluxo populacional direcionado aos centros urbanos tem aumentado ao longo dos anos. Uma população mais escolarizada e exposta às novas tecnologias faz com que os empregos sejam mais qualificados e a renda média da população aumente, ainda que para toda regra haja exceção.

A alteração demográfica da população mundial ao longo, especialmente, das últimas décadas, tem como consequência o aumento do contingente de pessoas que hoje compõem a classe média mundial – em outros termos, houve redução da miséria, mesmo que ainda haja um contingente inaceitável de pessoas que vivam em condições degradantes.

Com o aumento da massa urbana escolarizada e, consequentemente, o crescimento da renda média das famílias, é natural que o padrão de consumo dessas pessoas se modifique ao longo do tempo, com um aumento da exigência por uma comida mais nutritiva e saborosa. Este movimento favorece o consumo de proteínas e aumenta substancialmente a demanda por uma cesta de alimentos mais rica e com maior teor de fibras alimentares. Há, contudo, uma tendência que começa a ser observada em relação à produção de alimentos no mundo.

O relatório “Perspectivas Agrícolas 2022-2031”, recentemente divulgado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em parceria com a FAO (Organização para Agricultura e Alimentos), da ONU (Organização das Nações Unidas), indica que a demanda global por commodities agrícolas deve continuar crescendo na próxima década (em média, 1,1% ao ano), porém em nível inferior ao observado nos últimos anos, quando o percentual de crescimento anual residiu em patamares próximos a 2%.

Neste sentido, se a procura por alimentos continua crescente e cada vez mais famílias anseiam por alimentação mais balanceada e nutritiva, por que o ritmo do crescimento deve diminuir nos próximos dez anos, de acordo com estimativas oficiais?

Uma das razões reside no fato de que as projeções indicam que, ao longo da próxima década, menos commodities agrícolas deverão ser destinadas à produção de ração animal e de biocombustíveis. Isso em função do desenvolvimento de novas tecnologias que possivelmente suprirão com maior eficiência e menor custo a demanda por ração no mundo, assim como tornarão a produção de biocombustíveis mais sustentável e eficaz. Assim, ainda que o apetite por commodities alimentares aumente entre os seres humanos, haverá menor busca por grãos e demais cultivos para fins de alimentação animal e produção de energia.

Adicionalmente, é sabido que o crescimento da economia chinesa deve arrefecer ao longo dos próximos anos. Ainda que o gigante asiático continue crescendo e se desenvolvendo, o ritmo desse crescimento deve ser inferior ao observado até aqui. Nenhum país almeja depender de outras nações para nada, razão pela qual a China também investe pesadamente em soluções domésticas para os problemas e demandas de sua população, de forma a buscar a autossuficiência, também, em commodities e alimentos. Assim, o país asiático continuará forte em seu ritmo de crescimento, porém em menor velocidade e intensidade, olhando mais para as oportunidades internas do que para o mundo, inclusive em relação aos biocombustíveis, mercado almejado pelo Brasil.

O relatório em questão destaca ainda que a produção de commodities permanecerá, na próxima década, concentrada nos grandes produtores mundiais, dentre os quais, com destaque, o Brasil. Neste sentido, é importante que toda a cadeia agrícola brasileira esteja preparada para continuar a fornecer, com qualidade, commodities e alimentos ao mundo, sem que perca sua vocação para se adaptar às mudanças do perfil de consumo mundial. Mais do que ser forte e competente, para sobreviver, é preciso saber se adaptar aos ciclos e tendências do mercado.

(Colaboração de José Mário Neves David, advogado e consultor. Contato: jose@josedavid.com.br).

Publicado na edição 10.681, sábado a terça, 9 a 12 de julho de 2022.