Política mal conduzida

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Marcos Cintra

O tripé macroeconômico formado pelo regime de metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário começou a ser montado em 1999 e deu suporte para o crescimento econômico médio de 4,5% entre 2004 e 2010. Nesse período, a economia brasileira cresceu acima da média mundial, de 3,9% ao ano, com inflação sob controle.
Tudo andou bem para a economia brasileira naqueles sete anos de prosperidade. O desemprego caiu de 12% para 7%, a renda média dos trabalhadores cresceu 20% acima da inflação e o crédito para as pessoas físicas triplicou. Isso fortaleceu o consumo, que sustentou a expansão do PIB.
No âmbito externo, as exportações saltaram de US$ 73 bilhões para US$ 202 bilhões por conta do forte aumento dos preços das commodities e o capital estrangeiro entrou fartamente no País. O balanço de pagamentos manteve-se relativamente confortável, contribuindo para o crescimento da economia.
Sob o pretexto de acelerar o crescimento, o atual governo assumiu em 2011 pregando maior intervenção do Estado na economia. Gradualmente deixou de lado o tripé macroeconômico acreditando que o modelo intervencionista manteria a atividade econômica se expandindo de maneira sustentável. Hoje a economia brasileira paga caro por isso. O crescimento minguou e a inflação voltou a incomodar.
O tripé macroeconômico não basta para gerar crescimento econômico, mas proporciona credibilidade e previsibilidade para os agentes domésticos e estrangeiros. Seu enfraquecimento ocasionou desconfiança e aumentou o risco na economia. O cenário ficou ainda mais comprometido por conta do exacerbado intervencionismo estatal, que elevou os gastos públicos e o nível de endividamento em troca de efeitos tímidos na economia.
Cumpre dizer que o intervencionismo estatal foi marcado por ações desastradas e ineficazes. Na questão da infraestrutura, por exemplo, o governo fracassou. As licitações de ferrovias, aeroportos, rodovias e portos não decolaram. A competitividade da economia brasileira segue se deteriorando por conta de sua péssima logística.
O atual modelo econômico chegou ao fim. Não dá mais para se sustentar com base no consumo doméstico e ingerência na vida econômica. A classe média está endividada e a inflação segue reduzindo seu poder de compra. A atuação errática do poder público na economia inibe investimentos privados, uma vez que a percepção do risco cresceu no meio empresarial.
Ademais, o quadro internacional mudou. Os preços das commodities caíram por conta da desaceleração da atividade econômica na China e a expectativa de aumento dos juros nos Estados Unidos reduz o volume de capital estrangeiro no Brasil.
O governo conduziu mal a política econômica e o resultado é uma combinação de crescimento abaixo de 2%, metade da expansão do PIB mundial, e inflação elevada, na casa de 6,5%. Possivelmente, o próximo efeito negativo surgirá no mercado de trabalho, que dá sinais de saturação na oferta de empregos.

 (Colaboração de Marcos Cintra, doutor em Economia pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio [email protected] www.facebook.com/marcoscintraalbuquerque).

Publicado na edição nº 9580, dos dias 6 e 7 de agosto de 2013.