Ponha o seu cérebro para funcionar

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O cérebro, embora foco de inúmeras pesquisas no mundo, ainda se apresenta como uma grande incógnita para a comunidade científica, tanto que muitas das doenças degenerativas que o atacam, como o Mal de Alzheimer, por exemplo, se mostram até o momento sem cura.

A evolução da tecnologia a partir da segunda metade do século 20 ajudou e tem ajudado sobremaneira a evidenciar novos panoramas sobre as principais questões a serem decifradas, revelando detalhes do cérebro antes inimagináveis. No entanto, parece-nos que a caminhada em busca do santo graal cerebral ainda vai longe. O ponto positivo é que cada vez mais cientistas e institutos de pesquisas investem o seu tempo e dinheiro nessa empreitada.

É o caso de Tracey J. Shors, pesquisadora do Center for Collaborative Neuroscience, da Rutgers University, e de Elizabeth Gould, da Princeton University. Ambas as pesquisadoras há anos têm se dedicado à neurobiologia do aprendizado e da memória, disciplina responsável por entender o relacionamento entre o aprendizado e a neurogênese – processo de formação de novos neurônios.

Recentemente Shors divulgou um estudo que versa sobre o tema e afirma, em palavras gerais, que o cérebro deve ser exercitado como fazemos com os músculos, a fim de resguardar os novos neurônios criados diariamente. Embora não seja exclusivamente pioneiro, os estudos de Shors e Gould traçam uma rota de conhecimento fundamental para o desenvolvimento e estímulo de novas idéias e descobertas, tão requeridas no mundo todo.

A revolução

A criação de novos neurônios era tida há muito tempo pelos biólogos como um privilégio de mentes jovens. Depois de uma certa idade, pensava-se que o cérebro tendia somente a perder tecido nervoso e nunca a ganhar. A perda creditava-se à velhice, associada à vida estressante e sedentária, ou, em casos mais graves, a doenças degenerativas.

Na década de 1990 houve uma verdadeira revolução nesta idéia, de tal maneira que ficou evidenciado por inúmeras pesquisas que o cérebro adulto de mamíferos era capaz de desenvolver novos neurônios. Gould, estudando roedores, foi uma das primeiras pesquisadoras a descobrir e divulgar a neurogênese em uma parte específica do cérebro chamada hipocampo – envolvida com a memória e o aprendizado. Mas foi em 1998 que neurocientistas nos EUA e Suécia mostraram que a neurogênese também ocorre em seres humanos.

O cérebro dos roedores

Tracey Shors passou os últimos 20 anos estudando o cérebro de roedores para tentar entender como as células novatas de um animal adulto se relacionam com o seu aprendizado. Nesse tipo de animal sabe-se que nascem diariamente de 5 a 10 mil novos neurônios na região do hipocampo (ainda não se sabe o número nos humanos), mas a grande maioria tende a morrer em poucos dias.

Uma das descobertas de Shors dá conta que o consumo de álcool e tabaco retarda o nascimento de novas células, e os exercícios, ao contrário, podem aumentar. Experiências com ratos revelaram que aqueles que corriam todos os dias em uma roda giratória, desenvolviam até duas vezes mais células nervosas do que aqueles que se mantinham sedentários.

Entretanto, a descoberta mais fascinante advinda dessas pesquisas foi a de que os animais desafiados cognitivamente mantinham mais células novas. Em outras palavras, o processo de aprendizagem fazia com que os roedores conseguissem resgatar os novos neurônios fadados à morte certa, mantendo-os vivos e integrados à rede neuronal do cérebro.

Mas, não qualquer aprendizado, somente os mais difíceis. Por exemplo, fazer com que o roedor aprenda a nadar praticamente não evita a perda dos neurônios, pois, nadar para o roedor é uma tarefa quase instintiva de sobrevivência. Shors afirma que é necessário desempenhar uma tarefa que exige muito esforço do pensamento.

Analogias a parte

De acordo com as pesquisadoras ainda faltam muitas questões a serem respondidas em relação a esse assunto. Aliás, a cada resposta que elas encontram, muitas outras questões surgem, o que não é raro em pesquisa cientifica.

Atualmente não existem estudos desse tipo relacionados a humanos, mas tudo leva a crer que os acontecimentos com os roedores poderiam facilmente ser conjugados a humanos, dadas a algumas semelhanças que existem entre as duas espécies.

Pelo sim ou pelo não, Shors e Gould alertam principalmente aos fregueses de TV que comecem a mudar os seus hábitos, desligando a TV e procurando novos desafios cognitivos, como o aprendizado de uma nova língua, aulas de sapateado, ou mesmo resolvendo problemas simples como contabilizar mentalmente o número de árvores de um parque, o número de passarinhos por cor, ou brincando com um jogo de lógica no computador.

E como diz o velho ditado, envelhecer com saúde física e mental é uma das maiores dádivas da vida.

Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação.

Publicado na edição nº 10266, de 24 e 25 de maio de 2018.