Por que detonar?

José Renato Nalini

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O Brasil já padece de crônico e preocupante complexo de inferioridade. Nada aqui parece corresponder à pretensiosa idealização dos valores. Tudo nosso é insuscetível de comparação com o Primeiro Mundo. Daí a mania de imitação, que começa desde cedo, fazendo com que as crianças deixem o exuberante folclore que Monteiro Lobato soube colorir, para importar bobagens como o “Halloween”.
É apenas um exemplo, mas emblemático. Os personagens de Maurício de Sousa são muito mais instigantes e nos dizem mais à alma do que os de Disney. Mas há casais que sacrificam bens da vida essenciais para levar suas crias ao falacioso Disneyworld.
O reflexo dessa mimetização está na raiz de muitos de nossos problemas. Nunca nos consideramos capazes de superar dificuldades. Miramo-nos em realidades muito distintas e já aceitamos nossa insuficiência em todos os setores.
Os poucos heróis brasileiros não resistem a uma comparação com as figuras mundiais consideradas sobre-humanas e bem desenhadas pelo orgulho alienígena.
Agora mesmo, procura-se desmistificar um brasileiro que vinha resistindo em sua profícua existência, como legítimo exemplar digno de admiração. Falo de José Bonifácio de Andrada e Silva, o santista Patriarca da Independência, o melhor quadro do período em que Dom João VI permaneceu no Brasil e que foi escolhido para permanecer ao lado do jovem culto e inteligente, mas impetuoso Pedro I, o pioneiro Imperador do Brasil.
O livro “As Vidas de José Bonifácio”, escrito pela historiadora Mary del Priore, mostra o “Patriarca” de uma forma diversa daquela que nos foi ensinada. Sujeito ambicioso, menos intelectualizado do que se supõe, sem tanta relevância no processo de declaração da independência.
José Bonifácio foi um cientista, um precoce ambientalista, um estrategista e um homem de caráter. Algo que não é muito comum na História do Brasil, até hoje, ou seja: um conjunto virtuoso de dons, todos numa só personalidade.
Para a época em que viveu, José Bonifácio foi alguém de extrema importância para o Brasil. Voltou para sua Pátria depois de 34 anos de experiência na Europa, não só em Portugal, mas na França e na Suécia. Integrou Academias Científicas. Falava várias línguas. Empenhou-se em restaurar as matas lusas, que se findavam para a construção de caravelas e que eram utilizadas na construção civil. Mostrou-se previdente, profético, patriota. É pouco para mantê-lo no Panteão da Pátria?
A infância e juventude brasileiras estão carentes de bons exemplos. Por que procurar fragilidades naqueles poucos que restam e que poderiam servir como parâmetros para uma Pátria em permanente busca de um destino digno?

(Colaboração de José Renato Nalini, Reitor da Uniregistral, docente da Pós-Graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020.)

 

Publicado na edição nº 10461, de 5 a 7 de fevereiro de 2020.