Primaveras generosas

José Renato Nalini

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A despeito da crueldade humana, as Primaveras resplandecem com os ipês brancos, efêmeros como a tola pretensão humana e os amarelos, mais resistentes. Como a simbolizar a esperança dos que acreditam num mundo melhor.
O Brasil foi uma esplêndida surpresa para o colonizador luso. Ele já dizimara suas florestas, embora para uma causa justificável. Construir caravelas, com as quais o minúsculo território portucalense conquistou o mundo. Em aqui chegando, viu praias nunca dantes vistas na terrinha. Litoral de todos os tipos. Mas o que espantou foi a vegetação.
Exuberante. Colorida. Esfuziante.
A Europa não tem orquídeas, nem bromélias, nem a profusão de coqueiros, palmeiras e outras espécies que deixaram os marujos boquiabertos.
Tanto que era comum acreditar-se que esta Terra de Santa Cruz era o verdadeiro Éden. O Paraíso Terrestre era um espaço físico real. A explicação do Gênesis para o surgimento da espécie dita racional era levada ao pé da letra. Literalmente. Então, deveria existir esse jardim criado pela Providência para que os humanos viessem a desenvolver a sua aventura terrestre.
Isso não impediu que a destruição tivesse início já com a descoberta. O pau brasil, sua utilização para a obtenção da cor rubra, tão importante que fazia parte da bandeira portuguesa, causou a devastação da orla. E prosseguiu território adentro.
Várias etapas se sucederam no projeto de exploração da colônia, para satisfazer a ânsia de ouro da metrópole. Esta providenciou que não houvesse educação, para não despertar os colonizados e fazê-los enxergar a realidade. Na colonização espanhola, bem ao nosso lado, a Universidade começou a existir no século XVI. Aqui, só no século XIX.
Isso pode explicar, em alguma medida, o descaso geral em relação ao ambiente, patrimônio que herdamos e não sabemos preservar. Em todas as latitudes, vigora a extração devastadora, a utilização dos recursos naturais como se eles fossem infinitos. O grande supermercado gratuito serve à cobiça ignorante daqueles que escolheram o suicídio coletivo como destino. Nada obstante, a Primavera teima em florescer e enfrentar o excesso de gás carbônico, a nefasta vocação das cidades construídas para os veículos movidos a combustível fóssil venenoso.
Pena que os humanos continuem cegos e surdos, insensíveis aos apelos da irmã natureza.

(Colaboração de José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente da Pós-Graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista De Letras – 2019-2020.)

 

Publicado na edição nº 10482, de 1º a 5 de maio de 2020.