Que tal ouvirmos a natureza, para variar?

Wagner Zaparoli

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Há algum tempo eu explorei em nossa coluna, o mecanismo de vida das cigarras. Uma das características mais fascinantes sobre elas era o artifício utilizado para manter a sobrevivência da espécie: o eclodir de todas para fora da terra simultaneamente. Os seus piores predadores – os pássaros – com tanta oferta de alimento, não conseguem capturar todas as cigarras e as que sobrevivem são suficientes para se reproduzirem e manterem viva a espécie.

Na natureza existe um grande sincronismo de nascimento e morte entre as espécies animais e vegetais, e esse sincronismo é conseqüência das vastas cadeias alimentares inter-relacionadas. Qualquer distúrbio nessas cadeias pode por em perigo todas as espécies pertencentes a elas.

A ação cotidiana do homem, que pode estar levando ao aquecimento global, também pode estar impactando a delicada relação entre os ecossistemas naturais, e a médio prazo, poderá provocar as suas destruições ou no mínimo, os seus empobrecimentos.
Estudos em várias partes do mundo estão sendo feitos e, a priori, conduzem a conclusões nada promissoras para o futuro da Terra e de seus ecossistemas.

As plantas precoces da Inglaterra
Em 2001, o naturalista e professor de ecologia da University of New York, Alastair Fitter, revisitava as anotações antigas de seu pai quando observou algo que talvez fosse importante no contexto ambiental.

Seu pai passou grande parte da vida de pesquisador anotando as datas do primeiro florescimento de centenas de espécies vegetais, da chegada de aves na primavera, da partida das borboletas no final do verão e de outros sinais da passagem das estações.
Alastair, nessa época em que pesquisas indicavam o aumento da temperatura da Terra em torno de 0,6ºC nos últimos 100 anos, começou a comparar as anotações despretensiosas do pai a anotações de outros pesquisadores do início dos anos 90 e ficou surpreso, e por que não dizer, espantado, com o que encontrou: cerca de 390 plantas nas cercanias de Oxford, Inglaterra, estavam florescendo cerca de 4,5 dias mais cedo.

Fora de um contexto ecológico, pouco importaria se eram 4,5 dias ou mais. Olhando a natureza como um sistema extremamente equilibrado, o fato preocupava.
Os Fitter publicaram um artigo na revista Science em 2003 sobre a descoberta e depois de muita análise e outras observações, pesquisadores chegaram à conclusão sobre a realidade do impacto que a mudança climática – em especial, o aumento da temperatura – provocou nos ecossistemas naturais no século 20.

Os pardais da fome
De Hoge Veluwe National Park é uma grande área florestal em Amsterdã, Holanda, que abriga entre outras, várias espécies de pássaros que realizam anualmente os ritos de acasalamento da primavera.

Ali perto fica o escritório do chefe do departamento de biologia de população animal do Netherlands Institute of Ecology, Marcel Visser. Processo semelhante realizado pelos Fitter na Inglaterra, Visser e equipe registram anualmente a data de nascimento das aves freqüentadoras do parque, em especial a dos pardais. Fazendo comparações entre os dados atuais e os dados coletados em 1985, quando a temperatura na primavera do parque era 2ºC mais baixa, Visser observou que embora o cronograma de acasalamento das aves não tenha mudado, o das mariposas de lagartas que servem de alimento aos filhotes, mudou: adiantou-se em 15 dias na média. Resultado explícito do fato foi que somente as primeiras ninhadas de aves conseguem sobreviver; as demais sucumbem à fome.

Embora ainda seja cedo para tirar conclusões mais abrangentes, Marcel Visser acredita que será uma questão de tempo para se notar o declínio da população de aves na região, em função desse desacoplamento entre o nascimento e a morte das espécies relacionadas pela cadeia alimentar.

O sumiço dos Adélia
De acordo com o biólogo americano Willian Fraser, da Montana State University, a população de pinguins Adélia que vive na costa oeste da Península Antártica decaiu em cerca de 70% nos últimos 30 anos. Talvez seja o sinal mais evidente do quanto a mudança climática afeta as populações de animais na Terra.

Essa região que os pinguins usam para nidificar anualmente sofreu um aumento de temperatura de cerca de 6ºC nos últimos 50 anos. Esse aumento, ao contrário do que o senso comum indica, tem provocado uma maior precipitação de neve que atrapalha sensivelmente a procriação dos pinguins. Eles normalmente constroem os seus ninhos de pedras sobre o terreno nu e com o maior acúmulo de neve é impossível achar terreno que não esteja coberto. Sem opção, os pinguins depositam os ovos nos ninhos sobre a neve mesmo e antes de eclodirem, os ovos são gorados pela água abundante advinda da neve derretida. Resultado: menos pinguins nascem, portanto a população decai.

 

Esses exemplos de disfunções da natureza que levam ao declínio populações de espécies animais e vegetais são apenas alguns exemplos num mundo de adversidades. Embora reticentes, os pesquisadores envolvidos com a manutenção dos ecossistemas da Terra não escondem a preocupação com o futuro e afirmam que se nada for feito para frear o aquecimento global, em poucos anos já não será mais necessário expor as estatísticas negativas aos olhos da população. Será só uma questão de abri-los e olhar ao redor.
Daí nos veem um ponto de reflexão imperativo: estamos cansados de ouvir políticos pilantras e mentirosos, não é verdade? Será que não chegou a hora de ouvirmos o que a natureza tem para nos contar?

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).

Publicado na edição 10.563 de 17 a 19 de março de 2021.