Queda acentuada do PIB acende sinal amarelo

José Mário Neves David

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Dados recentes divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que o Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre de 2020 recuou 1,5% em relação ao resultado do quarto trimestre de 2019, quando foi apurada alta de 0,5%. A queda acentuada do PIB no período reforça os temores relativos à desaceleração econômica decorrente da pandemia de Covid-19 e indica um tombo ainda maior da produção de bens e prestação de serviços no Brasil no segundo trimestre desse ano, dadas as medidas de quarentena terem sido implementadas com maior vigor nos meses de abril e maio.
De acordo com os dados divulgados, o setor da indústria, que engloba os segmentos de transformação, extrativo, de construção civil e produção e distribuição de energia e gás, teve retração de 1,4% em relação aos meses de outubro a dezembro de 2019, ao passo que o setor de serviços, que abrange o comércio, a intermediação financeira e os serviços públicos em geral, sofreu queda ainda mais expressiva: 1,6%, comparativamente ao último trimestre de 2019.
A demanda das famílias por bens e serviços recuou 2%, assim como as exportações, que caíram 0,9%, diferentemente do setor do agronegócio e do consumo do governo, que apresentaram alta de, respectivamente, 0,6% e 0,2%, únicos resultados positivos da série. Seguindo o padrão, todos os números apresentados indicam um comparativo entre o quarto trimestre de 2019 e o primeiro trimestre de 2020.
Da análise dos números da economia apresentados pelo IBGE, pode-se chegar a algumas conclusões. A primeira e mais evidente é a de que os efeitos da pandemia são devastadores para a atividade econômica – apenas na segunda quinzena de março houve efetiva implementação de medidas de isolamento social e suspensão de atividades comerciais e produtivas, o que já foi suficiente para causar grande estrago na economia nacional. Os números do segundo trimestre, que serão divulgados em agosto, deverão ser ainda mais preocupantes.
A segunda conclusão é a de que as famílias efetivamente pisaram no freio do consumo, seja por precaução frente a um cenário social e econômico incerto, seja pelas dificuldades impostas para a aquisição de bens e tomada de serviços, seja pela efetiva queda no poder aquisitivo das pessoas em razão de receitas menores ou, infelizmente, o desemprego. Como terceira conclusão, tem-se que o consumo do governo subiu, provavelmente, em razão dos gastos extraordinários e necessários realizados para enfrentamento da crise, o que por certo trará consequências fiscais inesperadas nos médio e longo prazos e poderá aumentar o déficit das contas públicas.
Por fim, a quarta conclusão, e não menos importante, diz respeito ao crescimento do PIB do agronegócio no período. Tal fenômeno é explicado muito em função da valorização do dólar perante o real, da safra recorde de soja que impulsionou as vendas do grão, puxada pela forte demanda chinesa pela commodity, e pela atividade agropecuária básica aquecida para manutenção do abastecimento regular de alimentos no País.
Como se percebe, há poucos setores que se beneficiam do momento de crise para crescer e gerar riquezas ao Brasil, porém, no geral, a atividade econômica foi dura e repentinamente afetada pela pandemia de Covid-19 em curso, sendo que as projeções para os próximos períodos são de novas quedas, possivelmente em percentuais ainda mais acentuados. Dessa forma, é necessário ter em mente que os efeitos econômicos do coronavírus deverão perdurar, no melhor dos cenários, ainda por mais alguns meses, o que não apenas empobrece o País como também gera inseguranças e incertezas por parte dos investidores e da população.

(Colaboração de José Mário Neves David, advogado e administrador de empresas em São Paulo-SP. Contato: josemariodavid@gmail.com).

 

Publicado na edição nº 10491, de 6 a 10 de junho de 2020.