Quem não aprende com a história…

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Vitor Sapienza

Diz um ditado que quem não aprende com a história está condenado a repeti-la. Quando vejo as imagens da devastação, provocada pela seca em algumas regiões do nordeste, sou obrigado a liberar o meu lado crítico, e tirar o pó da história para citar fatos antigos, porém de grande importância para os nossos dias.
Mistura de líder religioso e conselheiro para todos os assuntos, o Padre Cícero Romão recomendava aos sertanejos que armazenassem toda a água disponível em tempos de chuva, para suportar os longos períodos de seca. Ali, mais que líder religioso, estava o homem comum que assistia de perto ao martírio dos desassistidos, numa região acostumada ao sofrimento.
Ainda outro dia o ex-presidente anunciava a criação do PAC – Programa de Aceleração do Crescimento – com grandes investimentos em vários setores. Lula dizia aos quatro cantos do país que iria levar água ao homem do sertão. E ingenuamente, o sertanejo acreditou. Pouco ou nada a acrescentar a uma gente acostumada a aceitar como verdadeiras as colocações de governantes.
Anunciado com a grande marcha rumo ao progresso, o PAC empacou. E assim foi, com várias obras, vários projetos. Para citarmos apenas um exemplo, basta lembrar que com muito menos do previsto para a transposição das águas do Rio São Francisco, poderia ser implantada uma rede de poços artesianos, cisternas e sistemas de coleta de águas pluviais que beneficiaria quem verdadeiramente mais precisa de água, o homem humilde do sertão.
No entanto, aceitamos como verdadeiras as palavras e engolimos um projeto que certamente irá beneficiar grandes grupos interessados na produção de frutas, criação de peixes em cativeiro, e irrigação de áreas particulares. Quem garante que um grande proprietário de terras permitiria que outro, cruzasse a sua propriedade, levando água do canal construído pelo governo, até a sua área? Construído o canal, haveria a “democratização” do uso da água?
Muito se falou na construção de cisternas. No entanto, a empresa que ganhou a concorrência para a construção de cisternas não entregou nem a terça parte do previsto. E fica o dito pelo não dito. Boa parte das obras não saiu do papel, outras estão atrasadas, e nota-se que, quando falamos em gestão, estamos ainda na idade da pedra. Quando alguém cobra os resultados, é tido como contrário ao desenvolvimento, inimigo político, ou desinformado.
O que ocorre com o combate à seca se estende a outras áreas. A sociedade fica à mercê de informações que nem sempre se coadunam com a realidade dos fatos. E somos obrigados a voltar ao ditado citado no inicio do texto. A verdade é que décadas se foram, governos mudaram, só não mudaram os homens. E o ditado continua atual: se não aprendemos com a história, só nos resta contemplar a sua repetição, em maior ou menor escala de sofrimentos.
(Colaboração de Vitor Sapienza, deputado estadual (PPS), presidente da Comissão de Ciência, Tecnologia e Informação, ex-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, economista e agente fiscal de rendas aposentado. Acesse: www.vitorsapienza.com.br). 

 

Publicado na edição n° 9455, dos dias 27 e 28 de setembro de 2012.