Saudades do poetinha

José Renato Nalini

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Quando me deparo com o mau gosto que inunda as redes sociais, com a grosseria de provocações chulas, de mau gosto extremo, lembro-me como já fomos melhores. Tempos em que tínhamos pessoas de gosto apurado, como Vinicius de Moraes.

Há dias, recebi mensagem atribuída a Nelson Rodrigues: “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”. Lembrei-me de Umberto Eco, a dizer que, antes da internet, o boçal proferia suas imbecilidades no botequim. Agora ele ganhou o mundo. Suas bobagens chegam instantaneamente a destinos inesperados.

Como foi que o feio conseguiu suplantar o belo? Como a rudeza acabou com a delicadeza?

Seria importante inocular Vinicius nessas mentes doentias e indigentes. Dar uma dose intensa de frases inesquecíveis, como “Amai, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido.”. “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. “O uísque é o melhor amigo do homem: é um cachorro engarrafado”. “Com as lágrimas do tempo e a cal do meu dia eu fiz o cimento da minha poesia”.

Esse “homem triste, com grande vocação para a alegria”, nunca viu surgir uma “boa amizade em uma leiteria”. Não gostava de avião – nem eu – e dava uma razão: “É mais pesado do que o ar, tem motor a explosão e foi inventado por brasileiro”. Também brincava com a superstição da sexta-feira treze, dizendo “quando cai no sábado, então é perfeito”.

Quem disse que “beleza é fundamental”, disse também: “Se o amor é fantasia, eu me encontro ultimamente em pleno carnaval”. Quem escreveu melhor sobre a fórmula de se viver um grande amor? “Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso – para viver um grande amor”.

Havia ética no discurso do poetinha, para quem “O homem ama naturalmente a verdade e o bem, e deles só se aparta quando as paixões o arrastam e extraviam”. Um amor “que não seja imortal (posto que é chama) Mas que seja infinito enquanto dure”.

Nesta fase de tanta fealdade, de tanta tristeza, de tanto luto, é preciso se agarrar em Vinicius: “Pra que chorar, se o sol já vai nascer, se o dia vai amanhecer. Pra que chorar, se há sempre um novo amor para cada amanhecer”. Que esse “novo amanhecer” venha logo para o nosso Brasil.

(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022)

Publicado na edição 10.633, de 18 a 22 de dezembro de 2021.