

Durante décadas, a saúde mental foi discutida quase exclusivamente sob a ótica dos neurotransmissores e dos medicamentos psiquiátricos. Antidepressivos, ansiolíticos, antipsicóticos e estabilizadores de humor passaram a ocupar o centro do tratamento de milhões de pessoas no mundo inteiro.
Os medicamentos possuem importância fundamental e salvam vidas. Isso não está em discussão. O problema começa quando a medicação se transforma na única estratégia terapêutica oferecida ao paciente.
Nos últimos anos, uma nova reflexão internacional vem ganhando força: a necessidade de compreender a saúde mental também através do metabolismo humano.
Inflamação crônica, resistência insulínica, deficiência de vitaminas e minerais, alterações hormonais, sono inadequado, sedentarismo, alimentação ultraprocessada e disfunções metabólicas passaram a ser observados como fatores importantes no adoecimento psíquico.
É nesse cenário que surge a psiquiatria metabólica.
Mais do que uma substituição da psiquiatria tradicional, trata-se de uma ampliação do olhar clínico sobre o paciente. Uma abordagem que busca compreender o indivíduo além do sintoma emocional, avaliando também fatores biológicos, nutricionais e metabólicos que podem influenciar diretamente o funcionamento cerebral.
Essa discussão ganha ainda mais relevância quando observamos o crescimento da polifarmácia em saúde mental.
Muitos pacientes permanecem anos utilizando múltiplos medicamentos psiquiátricos sem acompanhamento farmacoterapêutico contínuo e individualizado. Em diversos casos surgem ganho de peso importante, sedação excessiva, piora cognitiva, fadiga, síndrome metabólica, diabetes e redução significativa da qualidade de vida.
E aqui surge uma pergunta necessária: Quem está acompanhando esses pacientes além da renovação da receita?
É justamente nesse ponto que o farmacêutico clínico pode exercer papel essencial dentro das equipes de saúde mental.
O acompanhamento farmacoterapêutico permite identificar interações medicamentosas, efeitos adversos, dificuldades de adesão, sinais de dependência farmacológica, uso inadequado, riscos associados à polimedicação e possíveis necessidades de revisão terapêutica.
Além disso, o farmacêutico clínico pode auxiliar na educação em saúde, no monitoramento metabólico e na construção de estratégias seguras e individualizadas junto à equipe multiprofissional.
Nos CAPS e serviços públicos de saúde mental, essa integração se torna ainda mais necessária.
Os Centros de Atenção Psicossocial acolhem pacientes complexos, muitas vezes vulneráveis, utilizando tratamentos prolongados e múltiplas medicações. Pensar em saúde mental moderna sem integração clínica, metabólica e farmacoterapêutica talvez já não seja suficiente para os desafios atuais.
A psiquiatria metabólica não representa oposição aos medicamentos. Ela representa a necessidade de ampliar o cuidado.
Talvez a saúde mental do futuro não esteja apenas em prescrever corretamente, mas também em acompanhar profundamente o ser humano em toda sua complexidade biológica, emocional e social.
E nessa nova construção do cuidado, o farmacêutico clínico pode — e deve — deixar de ser apenas um dispensador de medicamentos para ocupar seu espaço como profissional ativo no acompanhamento terapêutico e na promoção de qualidade de vida.
(Colaboração de Dr. Luiz Assunção, Farmacêutico Clínico).
Publicado na edição 11.006, sábado a terça-feira, 16 a 19 de maio de 2026 – Ano 101




