Segredos de uma relação

Wagner Zaparoli

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É difícil afirmar com precisão quando os primeiros humanos despertaram para a música. Estima-se que sua existência seja contemporânea ao nascimento da própria cultura, embora não se saiba o porquê e como ela surgiu. Sabe-se, porém, que há mais de 30 mil anos o homem já tocava flauta manufaturada com ossos de animais, evidência obtida nos sítios arqueológicos da França. Ali também foram encontrados alguns instrumentos de percussão e até alguns tipos de harpa primitiva.
Conforme a humanidade foi evoluindo – desde os homens das cavernas aos dias atuais – a música sempre a acompanhou de perto. E análogo ao que ocorre hoje, os grupos sociais da época possuíam repertórios distintos como uma espécie de marca registrada.
A música tem um grande poder de emocionar, tanto que algumas pesquisas indicam que ela pode ativar os centros do prazer no cérebro, os quais também são estimulados pela ingestão do chocolate e da cocaína ou pelas relações sexuais, por exemplo.
Mas, como será que a música adquiriu esse estado de importância na mente do homem? Será que a música de certa forma incrementou a sobrevivência humana? Será que a música ajudou a criar grupos sociais mais coesos, culminando nessa grande e diversificada civilização do mundo moderno? Ou não será nada disso, mas sim uma simples e feliz coincidência da existência desse “manjar auditivo” que estimula as fantasias cerebrais, como afirma o Professor Steven Pinker, da Universidade de Harvard?
E justamente essas indagações advindas da inerente curiosidade humana, levaram inúmeros pesquisadores a estudar a relação entre cérebro e música para tentar entender os segredos mais profundos que a permeia. Alguns resultados já foram atestados e confirmados empiricamente, mas como o cérebro ainda continua a ser um desafio repleto de mistérios, certamente há muito que se estudar sobre essa relação.

A sintonia dispersa
Uma constatação admitida atualmente – depois de muitas pesquisas com pacientes com danos cerebrais, bem como indivíduos normais – é que o cérebro não possui um centro especializado em música. Pelo contrário, a música ocupa diversas áreas do cérebro quando é ouvida. Há muitos anos, numa época em que ainda não havia tecnologia para enxergar as ondas elétricas navegando pelo cérebro, cientistas já desconfiavam dessa tese. Isso porque os estudos com inúmeros pacientes, alguns famosos como o compositor francês Maurice Ravel e o compositor russo Vissarion Shebalin, indicavam para esse caminho.
Ravel, por exemplo, começou a apresentar em 1933 sintomas de uma provável degeneração cerebral. Dizia ele sobre a perspectiva de escrever Joana D´Arc: “Essa ópera está aqui, na minha cabeça. Posso ouvi-la mas não posso escrevê-la. Acabou. Não consigo mais compor minha música”. Já Shebalin, depois de sofrer um derrame em 1953, não conseguia mais conversar ou compreender o que os outros diziam, mas manteve sua capacidade e habilidade de compor até o dia de sua morte.
Uma outra paciente menos famosa conhecida apenas pelas iniciais I. R. – que sofreu dano bilateral nos lobos temporais, inclusive nas regiões do córtex auditivo – embora mantivesse a sua inteligência e memória intactas não conseguia apreender ou reconhecer qualquer tipo de música, fosse nova ou antiga. Também não conseguia distinguir duas melodias, ainda que fossem muito diferentes.
Esses exemplos aliados à evolução da tecnologia médica culminaram, ainda que de forma primitiva, em conclusões como a de que o lobo temporal esquerdo parece processar mais estímulos musicais breves do que o lobo temporal direito.

Sentimentos aflorados
O mais interessante das pesquisas que envolvem o cérebro e a música é a constatação das diversas formas de impacto que ela tem sobre as pessoas. John Sloboda, da Universidade Keele, Inglaterra, mostra numa pesquisa realizada com adultos, que mais de 80% dos observados relataram reações físicas à música, entre elas o arrepio, o riso e as lágrimas. Um outro estudo de 1995 realizado por Jaak Panksepp, da Universidade Estadual Bowling Green, indica que 70% de jovens entrevistados responderam que apreciavam a música por que ela desperta emoções e sentimentos.
Certamente a humanidade não vive mais sem a música, a despeito da duvidosa qualidade de muitas produções. Como dizia William Shakespeare – “O homem que não tem a música dentro de si e que não se emociona com um concerto de doces acordes é capaz de traições, de conjuras e de rapinas”.
E mesmo a escuridão do universo infinito ou o mais profundo dos silêncios têm os seus tons musicais. Basta saber ouvi-los.

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação)

 

Publicado na edição nº 10445, de 20 a 22 de novembro de 2019.