Somos naturalmente lúdicos

José Renato Nalini

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O ser humano é uma criatura complexa. O homo sapiens é também homo economicus, homo filosoficus e homo ludens. Johan Huizinga, pensador influente, escreveu o livro “Homo Ludens”, para explorar essa natureza humana pouco levada a sério: a irreprimível tendência ao jogo.

Jogar faz parte do que é ínsito e normal aos humanos. Tudo é jogo. A cultura racional não pode prescindir disso. Entretanto, por obscurantismo e sob argumentos os mais pífios, o Brasil continua a perder dinheiro, enriquecendo os países e empresários que oferecem o jogo como entretenimento e alavanca da economia.

Tão normal é o jogo, que ele já existe nas inúmeras loterias, na corrida de cavalos, na jogatina aberta na internet e disputada por aqueles que gostam de fazer suas apostas. Uma agenda moralista equivocada obstaculiza a regularização do jogo, que deixou de ser atividade lícita por um puritanismo fariseu, no governo Dutra.

Dizer que o jogo estimula a lavagem de dinheiro é confirmar a ineficiência do Estado. É óbvio que um governo mais interessado em orçamento secreto, em reforçar Fundões Eleitoral e Partidário, em cuidar de eleição e acarinhar a matriz da pestilência chamada reeleição, não se interessa em robustecer as agências. Ao contrário, aquelas que existem para proteger o ambiente já foram todas defenestradas.

Falha o governo federal ao ignorar que a legalização dos jogos e a reabertura dos cassinos fará com que o dinheiro hoje remetido para o exterior fique no Brasil. Além disso, milionários do mundo inteiro virão para cá, atraídos pela nossa orla, o mais bonito litoral do planeta.

Honestidade independe de lei. O “jogo do bicho”, praticado às escâncaras, nunca lesou seus apostadores. Falha também o governo estadual, ao não promover a implementação das loterias permitidas, que resolveriam vários problemas: um Erário carente de recursos, uma legião de desempregados que encontraria fonte de trabalho e, por consequência, a redução da criminalidade. Sim, pois como último recurso, um pai que não tem como alimentar sua prole é levado a práticas que repudiaria se tivesse fonte digna de sobrevivência.

Governos: somos naturalmente lúdicos! Deixem a hipocrisia de lado e legitimem o que já existe e, na clandestinidade, só robustece a corrupção.

(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022.)

Publicado na edição 10.657, de sábado a terça-feira, de 2 a 5 de abril de 2022.