Tempestade perfeita

José Mário Neves David

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Uma junção de fatores das mais variadas origens tem chacoalhado os mercados ao redor do mundo e acionado o alerta em autoridades, empresários e investidores domésticos e globais.

A combinação de pressões inflacionárias, retirada iminente de estímulos econômicos, retomada abrupta da demanda por insumos e produtos manufaturados e fortes iniciativas de natureza ESG (environmental, social and corporate governance, ou medidas de cunho ambiental, social e de governança empresarial, em português), tudo isto em um cenário ainda pandêmico, fazem com que a economia global, já fortemente combalida pelos efeitos da Covid-19 no âmago da sociedade mundial, tenha dificuldades em lidar com os desafios econômicos, sociais e geopolíticos do momento.

No campo da economia, os bancos centrais e as autoridades monetárias dos países desenvolvidos, notadamente Estados Unidos da América, os integrantes da União Europeia e o Reino Unido, têm dado mostras de que os juros baixos praticados em tais países, assim como as políticas de compra de títulos e injeção de recursos na economia, tomados no intuito de aquecer os mercados locais e dificultar cenários de estagnação econômica, estão com os dias contados. As dificuldades orçamentárias e, principalmente, os temores de que os riscos inflacionários saiam de controle estão forçando as autoridades das economias desenvolvidas a retirar medidas de estímulo, aumentando a taxa de juros e cessando ou diminuindo a injeção de recursos no mercado. Com tais medidas, que devem ser implementadas oficialmente ainda em 2021, os investidores devem migrar capital especulativo para as economias desenvolvidas, mais seguras do ponto de vista regulatório e macroeconômico, o que prejudica os índices e investimentos em economias em desenvolvimento, tais como a do Brasil.

No quesito aumento da demanda, a retomada das atividades econômicas mundo afora após os piores momentos da pandemia tem gerado um cenário de problemas de abastecimento de insumos e atendimento da demanda por bens básicos e manufaturados, somado ao princípio de caos gerado no sistema logístico de transporte de bens mundo afora – portos, aeroportos e ferrovias estão abarrotados de mercadorias e produtos primários para despachar, ao passo que cadeias de produção estão paradas ou em ritmo lento face à falta de insumos e materiais básicos. Com a falta de produtos, a cadeia de produção e entrega fica desfalcada, e os preços sobem num cenário de forte demanda e oferta irregular, fomentando os riscos inflacionários pelo mundo.

Ademais, questões de natureza ESG, cada vez mais presentes nas cadeias globais de produção e consumo, tem acelerado a substituição de matrizes energéticas poluentes e a produção e comercialização de mercadorias com baixo ou nulo potencial de reciclagem. Tais apelos, legítimos, estão contudo em descompasso com a capacidade das mencionadas cadeias de se adaptarem aos novos tempos e demandas dos consumidores, de forma que a substituição das matrizes e linhas de produção não tem acompanhado a demanda por processos de produção e por mercadorias finais mais alinhadas aos propósitos ambiental, social e governamentalmente adequados aos novos tempos, gerando um vácuo entre o que o mercado demanda e o que as cadeias produtivas podem e conseguem entregar atualmente. Tal descompasso fomenta, ainda mais, a diferença entre a demanda e a oferta, pressionando ainda mais a inflação e as quebras das cadeias de produção, logística e comercial.

Neste cenário, uma tempestade quase perfeita do ponto de vista econômico, social e geopolítico, quem mais sofre são as “pessoas comuns”, como você leitor, que acompanha a escalada de preços no supermercado, os combustíveis em níveis elevados de valor, os números preocupantes do desemprego e o aumento assustador da informalidade no País, a corrosão do patrimônio e dos investimentos com o fantasma da inflação e os problemas que, mesmo à distância, geram efeitos no Brasil, como a crise de energia na Europa, o crescimento mais contido da economia chinesa e as definições mais políticas do que de mercado no âmbito da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Uma junção de muitos fatores distintos que causam efeitos no seu bolso, na vida e no bem estar de milhões de brasileiros.

(Colaboração de José Mário Neves David, advogado e administrador de empresas. Contato: jd@josedavid.net).

Publicado na edição 10.617, de 16 a 19 de outubro de 2021.