Todos os dias, doze Boeings

José Mário Neves David

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O Boeing 737, fabricado nos Estados Unidos da América, é um dos mais famosos modelos de avião até hoje desenvolvidos, produzidos e utilizados no mundo. Com mais de 50 anos desde seu voo inaugural, é sinônimo de confiabilidade, economia, potência e adaptabilidade às necessidades de cada companhia aérea e seus passageiros. Os modelos tradicionais do Boeing 737 comportam de 110 a 189 passageiros, sendo assim um dos modelos mais versáteis da aviação comercial mundial.
Mas este artigo não trata de questões da aviação. Pelo contrário, em tempos de pandemia e crise mundial, a aviação comercial está em apuros. Este artigo aborda, sim, uma característica perversa do momento dramático vivido pela sociedade brasileira e mundial: as mortes decorrentes da proliferação do vírus que, para a maior parte das pessoas, representam apenas números e estatísticas.
Na data em que este texto está sendo escrito, o Brasil registra média móvel de 2.298 mortes diárias decorrentes da Covid-19, considerados os últimos quatorze dias como referência. Em suma: nas últimas duas semanas, morreram em função de complicações da pandemia 2.298 pessoas em média ao dia, pouco mais do que doze Boeings lotados em sua capacidade máxima no modelo padrão (189 passageiros), todos os dias. Doze.
Desastres e acidentes aéreos são sempre traumáticos. Envolvem e solidarizam toda a sociedade, seja pela violência do ocorrido, seja pela quantidade elevada de vítimas fatais. Agora imagine doze aviões caindo, dia após dia – qual o grau e alcance dessa tragédia?
É claro que estamos falando de números em dimensão nacional; é certo que o Brasil é gigante, em tamanho e população; é evidente que muitas destas mortes foram ocasionadas por força de comorbidades já existentes. É realidade, contudo, que a quantidade de mortes verificadas no curso da pandemia é muito maior do que a que podemos – ou deveríamos – suportar ou tolerar.
O Brasil, com todas as suas mazelas e virtudes, é um campeão mundial em homicídios, triste tragédia que nos assola desde sempre. Agora, verificadas as muitas mortes diárias de pessoas, mães, pais, irmãos, filhos, em função da Covid-19, fica a questão: será que perdemos a sensibilidade para o absurdo?
O humilde objetivo deste artigo é fazer com que, no meio da rotina puxada e da luta diária, possamos refletir a respeito do vergonhoso patamar de mortes a que o Brasil está exposto em razão da pandemia – somos responsáveis por aproximadamente 1/5 das mortes globais relativas à Covid-19.
Que os dados de falecimento de vítimas deste vírus sejam analisados não apenas como um número, assim como infelizmente já nos acostumamos a olhar as estatísticas de homicídios. Que sejam vistos como 2.298 entes queridos, amigos, familiares, trabalhadores, vizinhos que foram acometidos por uma doença cruel, sobre a qual pouco se sabe e que alcança a todos, independentemente de posição socioeconômica. Oremos pelas vítimas diárias das quedas dos Boeings, e que façamos, cada um, nossa parte para reduzir o mais rápido possível a quantidade de aviões acidentados.

 

(Colaboração de José Mário Neves David, advogado e administrador de empresas. Contato: jd@josedavid.net).

Publicado na edição 10.566 de 27 de março a 1º de abril de 2021.