Não há dúvidas de que o câncer, de forma geral, ainda é uma doença cujos mecanismos de formação, propagação e combate desafiam a ciência e a tecnologia atuais. Não é por falta de investimentos, pois cientistas do mundo todo vêm estudando o problema há muito tempo e vez por outra ouvimos a notícia sobre o surgimento de uma pílula que resolverá a questão definitivamente.

Por ora a pílula milagrosa que combata todos os tipos dessa doença não existe e pessoas continuam a morrer devido a ela. Manter as pesquisas na busca por novas alternativas, como a engenharia genética, ou por novas ideias às vezes improcedentes ao senso comum, faz girar a roda da ciência no caminho da evolução. Essa é uma necessidade mínima.

Sobre novas ideias

Há algum tempo um pequeno artigo sobre câncer publicado na revista Scientific American teria passado despercebido se não mencionasse em seu título um tema um tanto inovador para a questão da doença. Dizia ele que os amigos mais fiéis do homem poderiam contribuir veementemente para a evolução das pesquisas, e quem sabe, evidenciar explicitamente os mistérios que envolvem os mecanismos dessa doença. Se isso fosse verdade, definitivamente não haveria no mundo um animal mais fiel e prestativo ao homem. Então fui conferir.

Normalmente, os pequenos roedores são os animais mais utilizados em pesquisas laboratoriais que envolvem o câncer. Muitas drogas conhecidas são capazes de curar vários tipos de câncer artificialmente induzidos nesses animais. Entretanto, quando aplicadas em estudos clínicos com humanos há um progresso extremamente vagaroso, por vezes inaceitável.

Alguns pesquisadores que trabalham com a oncologia comparada tiveram então a ideia de buscar um “objeto” de estudo que fosse mais semelhante ao homem do que o eram os roedores. Chegaram aos fiéis escudeiros.

Os cães domésticos e os seres humanos são as duas únicas espécies que desenvolvem naturalmente o câncer de próstata letal. Da mesma forma, o tipo de câncer de mama que afeta esses animais se dissemina preferencialmente nos ossos, exatamente como ocorre nas mulheres. E o câncer ósseo mais frequente neles, o osteossarcoma, é o mesmo que atinge nossos adolescentes.

Essas coincidências à vista desses pesquisadores não passaram despercebidas e logo os levaram a refletir sobre a possibilidade de descobrir melhores tratamentos, estabelecer doses de medicamentos mais eficazes, identificar fatores ambientais que desencadeiam a doença, entender porque alguns indivíduos são resistentes aos tumores, e por fim, encontrar formas de evitá-los. Além dos tumores que lembram os nossos, os cães têm uma duração de vida comprimida, o que poderia apressar todo esse conjunto de possibilidades.

Latidos para a prevenção

O tema prevenção, muito comum às doenças infecciosas como o sarampo, rubéola e meningite, é relativamente recente no campo oncológico. Embora há mais de 30 anos exista o termo “quimioprevenção”, somente em 2002 aconteceu uma reunião nos EUA para se discutir o tema profundamente.

Apesar de configurar-se como um tema de difícil abordagem, parece estar evoluindo com a ajuda dos cães. Recentes estudos caninos ajudaram a definir, por exemplo, a dose de um antioxidante – o selênio – que presente no organismo ajuda a minimizar a lesão genética causadora do câncer de próstata no envelhecimento. Nem muito, nem pouco, mas medidas moderadas em cães idosos acabaram com menos danos aos seus DNAs. Isso poderia servir de parâmetros para o uso em humanos.

Um outro exemplo é a utilização de cães de estimação como sentinelas para identificar em casa ou no quintal substâncias carcinogênicas como o amianto – responsável por tumores nos tecidos que revestem o tórax e abdome.

Como nós, cães também podem apresentar o mesotelioma devido ao amianto, só que em um período relativamente curto em comparação ao homem. Assim, qualquer sinal da doença no animal poderia alertar o dono, sua família e vizinhos para encontrar e eliminar fontes de amianto e monitorar uma possível doença futura.

Como esses, inúmeros outros exemplos estão sendo aventados para a utilização de cães no estudo do câncer. É uma via diferente, mas que pode apresentar resultados promissores.

É importante salientar que a utilização dos cães nesses estudos não representa em hipótese alguma a indução artificial da doença neles, como se faz com os roedores. Na verdade são selecionados animais que já possuem a doença que é estudada, analisada e tratada.

Publicado na edição 10.761, quinta a terça-feira, 8 a 13 de junho de 2023 – Ano 99