Um SIM bem grande para as vacinas

Wagner Zaparoli

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Com certa frequência costumamos observar movimentos não comprometidos com a verdade que insistem em levar a humanidade de volta às trevas, reduzindo a sua civilidade, conhecimento e cultura a meros resquícios de ignorância e estupidez.
Exemplo explícito são os terraplanistas que defendem a Terra plana ou achatada parecida a uma pizza. Não vou gastar o tempo e a paciência do iluminado leitor discutindo argumentos insustentáveis desses personagens caricatos. A humanidade já cumpriu sua sina obscurantista durante séculos de Idade Média. O Iluminismo deu um basta.
Entretanto, outros movimentos são bem mais danosos à sociedade, como o antivacina, que pelo advento das redes sociais acabam por ganhar força e atingir assertivamente a população mais influenciável e desprovida de conhecimento e senso crítico.
Teoria da conspiração é um dos temas preferidos e utilizados por eles, por exemplo, aquele que atribui à família Rockefeller a criação do vírus da zika ou o que atribui às vacinas o surgimento do autismo em crianças (sic!).

Uma experiência pessoal
Por laboriosos quatro anos estive pessoalmente envolvido com os problemas e soluções relacionados às doenças infecciosas. Ao lado de meu grande mestre e professor Raymundo Soares de Azevedo Neto, pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, pude vivenciar – mesmo que de forma superficial – a batalha diária de pesquisadores e profissionais da área da saúde no combate às doenças.
Parte desses anos fiquei literalmente internalizado no Centro de Vigilância Epidemiológica do Estado de São Paulo, instituição na qual tive a oportunidade de conviver com grandes estudiosos da saúde pública brasileira e aprender um pouquinho sobre o controle das doenças infecciosas. Uma das melhores lições que trago comigo é que as doenças, sem o devido controle, se espalham geograficamente de forma rápida. Num piscar de olhos um único caso se torna um surto e em outro uma epidemia, cujas consequências podem ser trágicas sob o ponto de vista humano, bem como econômico.
Uma das maneiras mais efetivas que países no mundo encontraram para mitigar essas consequências foi usar a prevenção. Essa ação mágica associada a um milagre promovido pela ciência – a criação das vacinas – permitiu que governos e população contivessem o espalhamento das doenças e conseguissem conviver minimamente com os males à espreita.
Se as vacinas não existissem ou não fossem aplicadas de forma massiva e sistematizada, estaríamos vivendo uma Guernica pós-bombardeio, um verdadeiro cenário de caos, morte e sofrimento.

Sem espaço para hesitação
A Organização Mundial da Saúde divulgou recentemente um relatório em que apresenta as dez maiores ameaças globais à saúde pública em 2019. A hesitação em vacinar está entre elas e é a oitava relacionada. Mesmo com a disponibilidade de medicamentos a hesitação pode reverter o progresso obtido na prevenção de várias doenças.
O Brasil é um bom exemplo. Embora nosso país tenha uma ampla cobertura vacinal, a partir de 2011 tem se observado uma queda na procura por todos os tipos de vacinas em crianças menores de dois anos de idade. Dados mais recentes referentes à poliomielite mostram que a cobertura vacinal em 2012 era de 96,5%. Já em 2018 esse número caiu para meros 86,3%.
Claro que a hesitação não é a única causa desse desvio perigoso. A sensação da falta de risco disseminada principalmente entre a população jovem, a logística e horários que não coincidem com a agenda dos pais e a própria resistência à vacina, contribuem sobremaneira para o processo de queda na procura.
E isso não pode ocorrer! Seria impensável voltarmos a viver como nos tempos das cavernas. A ciência, os cientistas e toda a sociedade precisam resistir a essa rede ardilosa que panfleta de forma irresponsável e inconsequente inverdades sobre o malefício das vacinas. Isso representa um verdadeiro atentado à sobrevivência da humanidade, um atentado ao maior espetáculo proporcionado pela natureza que é a manutenção da vida. Acreditar individualmente nessa loucura é responsabilidade de cada um, mas disseminá-la a toda sociedade como verdade é delinquência.
Para quem quiser entender melhor o processo de vacinação e seus impactos, vale a rápida leitura da cartilha de vacinas. É só acessar http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cart_vac.pdf.

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).

 

Publicado na edição nº 10452, de 14 a 17 de dezembro de 2019.