Um universo de incertezas

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A humanidade aprendeu a conviver com diferentes modelos cosmológicos ao longo de sua existência. Pelas palavras do “Almagesto”, escrito por Claudio Ptolomeu (90 – 168), a teoria geocêntrica explicou o Universo por 13 séculos seguidos, retratando as observações Aristotélicas que colocavam o homem como o senhor do
mundo.
O Renascimento, que ecoou pela Europa a partir do século XIV, trouxe novas luzes à ciência com a publicação do livro “Da revolução das esferas celestes”, escrito por Nicolau Copérnico (1473-1543), o qual diminuía o egocentrismo do homem, retirava a Terra como centro do Universo e colocava o Sol em seu lugar. Johannes Kepler (1571 – 1630), poucos anos mais tarde, reformulou o modelo copernicano, transformando o movimento circular dos planetas em movimentos elípticos, embora conservasse o Sol como o centro do Universo.
Já no século XVII Isaac Newton (1642 – 1727) adentra às forças que regem o Universo e formula a lei da gravitação universal, publicando em 1687 aquele que foi um dos livros mais influentes da história da ciência, o “Principia”.
O século XX trouxe à luz da razão não só uma ciência mais apurada, mas também uma tecnologia que começava a melhorar a miopia do homem. Albert Einstein ignorou a teoria da gravitação de Newton apresentando um Universo curvo, que se deformava pela existência de astros massivos, fossem eles pequenos asteróides ou supergigantes vermelhas. Edwin Hubble, de posse do grande telescópio Hooker, mostrou que o Universo estava em franca expansão diante da ideia estática que até então predominava nos meandros científicos. O homem, que já havia perdido sua grande significância da era grega, agora definitivamente não passava de mera poeira do Universo, cuja existência não tinha qualquer influência sobre o brilho das estrelas.
Finalmente o século XXI chegou a reboque da alta tecnologia, as quais têm propiciado discutir e identificar elementos fundamentais para a nossa existência, como aqueles que formam os nossos corpos e todos os demais corpos celestes. Há poucos anos, em meados de 2012, o Grande Colisor de Hádrons (LHC) conseguiu identificar a partícula que dá vida à matéria no Universo, o bóson de Higgs, popularmente conhecida como a partícula de Deus.

O Universo que não vemos

Quando olhamos para uma noite estrelada e nos deslumbramos com o brilho intenso da Via Láctea, estamos vendo somente parte dos 4% do Universo (galáxias, estrelas, planetas, etc) que conseguimos identificar, seja a olho nu, seja por meios tecnológicos. Os 96% restantes não vemos e não sabemos o que é. Somente a denominamos de matéria escura, algo (pode ser um conjunto de partículas) que os cientistas ainda não conseguem explicar razoavelmente.
De acordo com Brian Schmidt, físico americano ganhador do Nobel de 2011, se a matéria escura tratar-se de uma partícula como o Bóson de Higgs, detectável pelo LHC, pouco da teoria atual sobre as partículas elementares do Universo terá de ser modificado. Entretanto, se não se tratar, podemos inferir que será necessária uma grande mudança de paradigmas para encontrar a verdade, como ocorreu ao longo da história da ciência. O fato é que há bem pouco tempo, cerca de 15 anos, sequer tínhamos consciência sobre nosso desconhecimento da matéria escura. Não a víamos e não sabíamos disso.
Além da matéria escura existe a energia escura (note que são conceitos diferentes), a qual compõe cerca de 73% do Universo. Análogo à matéria escura, a energia escura também nos é uma completa desconhecida, mas desconfia-se que ela seja a força por trás da expansão acelerada do Universo.

Dúvidas eternas

Embora muitos cientistas se debrucem sobre as questões básicas da natureza – como nasceu o Universo, qual o seu destino, como surgiu a vida, etc – o fato é que ainda navegamos por mares de incerteza. Exceto pelo viés religioso, nada até o momento nos indica que em breve teremos respostas para essas e outras dúvidas que atormentam a humanidade desde tempos remotos.
Mas não podemos parar. Fosse assim poderíamos estar convivendo com o modelo geocêntrico de Ptolomeu e acreditando que a Terra ainda estaria no centro do Universo.
Sopremos as velas da ciência, portanto!

Publicado na edição nº 9860, 2 e 3 de julho de 2015.

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