Vivendo na bilionésima parte

Wagner Zaparoli

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O cotidiano corrido, às vezes, não nos deixa reparar alguns detalhes da vida. Observem que interessante, por exemplo, o processo de formação de um novo ser: tudo começa quando meia molécula de DNA do macho encontra meia molécula de DNA da fêmea e formam uma molécula inteira que contém toda a informação necessária ao desenvolvimento desse ser, como a cor dos olhos, da pele e dos cabelos, a pré-disposição para determinadas doenças, a estrutura óssea, e quem sabe, o nível intelectual.
E que tamanho tem essa molécula, já que carrega consigo tanta informação? Bem, tão pequeno que não podemos enxergá-la a olho nu.
Há mais de 2.500 anos, portanto antes mesmo de Cristo nascer, os gregos já refletiam sobre a formação dos elementos da natureza, como os animais, as árvores, a água e a terra. Embora não tenham cunhado o termo “átomo” na época, lançaram a idéia do “indivisível”, base do conceito atômico. Pensavam eles que tudo no mundo deveria ser formado por elementos simples, fundamentais e indivisíveis, como os tijolos de uma casa, guardadas as proporções.
Em 1959, portanto muito depois da idéia grega do indivisível, o físico norte-americano Richard Feynman, prêmio Nobel em 1965, lançou olhares para o mundo invisível numa espécie de apologia à idéia dos gregos. O trabalho apresentado por ele no encontro anual da Sociedade Americana de física, cujo título era “Há mais espaço lá embaixo”, tratava da fabricação de uma tecnologia invisível aos olhos humanos, mas revolucionária sob a óptica de todos os segmentos científicos.
Feynman enxergou o indivisível talvez como poucos e através de indagações pretensiosas como “Por que não podemos escrever os 24 volumes inteiros da Enciclopédia Britânica na cabeça de um alfinete?”, despertou a ciência e os cientistas para o mundo da nanotecnologia (‘nano’ vem do grego e significa ‘anão’).
Ele não se restringiu a indagar somente; lançou inúmeras idéias e propôs uma série de pesquisas para que o assunto do “muito pequeno” não fosse encarado como algo insustentável e sem importância, embora nos anos de 1950 e 1960 não houvesse meios tecnológicos para colocar em prática as suas esfuziantes sugestões.

O legado de Feynman
Foi somente a partir de 1980, com a introdução da microscopia de tunelamento que permite “ver” um átomo, é que as propostas de Feynman começaram a fazer sentido na prática.
E de suas idéias arrebatadoras à aplicação da nanotecnologia de fato deu-se um largo mas rápido passo. Para se ter uma idéia, até 1997 os EUA, o Japão e alguns países da Europa haviam investido cerca de 500 milhões de dólares em pesquisas na área. Hoje, só os EUA já contabilizam investimentos da ordem de 700 milhões de dólares.
Os resultados dessa corrida e dos investimentos volumosos parecem estar em todo lugar: da indústria têxtil à medicina; da astronomia à computação; dos esportes à geologia. Até parece aquele chazinho da vovó, que serve para todos os males, inclusive para aqueles que ainda não apareceram.

Nanotecnologia na prática
Para citar alguns exemplos que já são realidade atualmente, podemos falar da indústria norte-americana de bolas de tênis que usa partículas de vedação nanométricas (bilionésimo de metro) para construir o núcleo de borracha das bolas; da cera feita a partir da nanotecnologia e utilizada pelos esquiadores para obter maior velocidade e controle dos esquis; da calça que nunca amassa e nunca mancha, feita por bilhões de minúsculas fibras; dos nanocatalizadores que minimizam a concentração de compostos aromáticos durante as fases de refino do petróleo; do nanomaterial para memória de computador com alta capacidade de armazenamento; das nanopartículas à base de ferro capazes de destruir tumores de câncer; e das nanopartículas florescentes usadas para a visualização de medicamentos dentro do organismo humano.
Esses são apenas alguns poucos exemplos da utilização da nanotecnologia. Muito ainda está por vir, pois à medida que a tecnologia se desenvolve, a nanotecnologia se desenvolve também.
Fala-se do surgimento dos ultravelozes computadores quânticos e dos nanorobôs capazes de percorrer o corpo humano tratando dos mais diversos distúrbios orgânicos. Fala-se também da fabricação de medicamentos muito sofisticados e do desenvolvimento ambiental sustentável.
Fala-se de uma revolução monumental que permitirá ao homem não só enxergar a bilionésima parte, mas viver dentro dela. Não seria fantástico?
Tenhamos, portanto, fé nas luzes da ciência e da tecnologia. Que elas continuem iluminando suavemente o caminho da humanidade.

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).

 

Publicado na edição nº 10542, de 16 a 18 de dezembro de 2020.